O suíço Samuel Crettenand empenhou-se desde muito cedo em chamar a atenção dos media, dos políticos e do público para o massacre de crianças em Gaza. Em dezembro de 2023, iniciou uma greve de fome, empunhando um cartaz que atualizava diariamente com o número de vítimas. Envolveu-se depois na organização da Marcha Mundial para Gaza e da Flotilha Global Sumud. Em casa, não deixa escapar nenhuma oportunidade de confrontar membros do governo com a cumplicidade da Suíça no genocídio perpetrado por Israel.
Arqueólogo de formação, Samuel Crettenand fez várias viagens à Síria no quadro de expedições de investigação arqueológica sobre o património do início do cristianismo, antes de se dedicar à publicação de obras sobre património cultural, arqueologia e etnografia. Convidado pelo Museu de Arte e História de Genebra a integrar uma missão em Gaza em 2005, para recolher fotografias para a publicação de um catálogo de exposição, voltou à Faixa de Gaza em 2008 para completar o inventário da exposição. A primeira visita acontece quando os últimos colonos saem da Faixa de Gaza no quadro da retirada israelita iniciada pelo primeiro-ministro Ariel Sharon. A segunda tem lugar após a ascensão do Hamas ao poder, quando a população de Gaza se encontra sob um bloqueio total.
Ao saber da incursão do Hamas em Israel, em 7 de outubro de 2023, os primeiros pensamentos de Crettenand vão para a população, certo que que a resposta de Israel seria como sempre terrível e que os civis iriam pagar um alto preço. “Três dias mais tarde percebi que Israel estava a realizar um plano de limpeza étnica. Percebi que se tratava de um genocídio, uma espécie de solução final.”
Passadas algumas semanas, teve as primeiras notícias de amigos que se tinham refugiado em Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza. “Perguntei-lhes o que comiam. E decidi comer todos os dias o mesmo, por solidariedade. Depois pensei que era bom para a minha consciência, mas que para ajudar os meus amigos tinha que fazer mais, tinha que divulgar o que lhes estava a acontecer. Assim, decidi começar uma greve de fome.”
No dia 12 de dezembro, iniciou uma greve de fome que havia de durar 40 dias.

© Samuel Crettenand
E decidiu ir para a rua. Com um cartaz onde se lia o número de crianças assassinadas em Gaza pela operação militar israelita, um número que ia atualizando. “Saí quase todos os dias para a Praça Federal durante as sessões de inverno, ia a conferências e manifestações, e às estações de comboio.”
Tendências fascistas
A greve de fome do militante pacifista pelas crianças de Gaza incomoda o aparelho de estado. É seguido por agentes da polícia, é frequentemente submetido a controles de identificação, em particular quando protesta na capital suíça. O facto de agir sozinho faz aumentar a frustração.
Crettenand estava há uma semana em greve de fome quando, no dia 18 de dezembro, na estação ferroviária de Berna, foi brutalmente atacado pela segurança privada da companhia de transporte ferroviário suíça, agentes da polícia e indivíduos não identificados que se suspeita serem agentes da polícia federal suíça (Fedpol). “Fui primeiro abordado por dois seguranças privados que me pediram o meu documento de identidade, que apresentei. Disseram-me que estava proibido de entrar na estação durante 48 horas, o que recusei. Pedi educadamente que me devolvessem o cartão de identidade para que pudesse continuar o meu protesto. Quando se recusaram, peguei no cartão, que um dos polícias tinha colocado num tabuleiro. Avançaram então sobre mim e tentaram derrubar-me.”
Foi então que apareceram três homens vestidos de preto que o imobilizaram e algemaram, entregando-o a dois polícias de Berna e desaparecendo sem dizer uma palavra. Apesar das explicações do ativista pacifista, que afirmava estar em greve de fome há sete dias, levaram-no para uma cela onde perdeu os sentidos. “Quando acordei, semiconsciente, um polícia batia-me no peito e nas coxas, enquanto gritava: ‘Vais continuar a sofrer se não parares com este teatro’.”


Debatendo-se com dificuldades respiratórias, pediu ajuda médica. Os maus-tratos só cessaram com a chegada dos paramédicos. Foi hospitalizado e recebeu um relatório médico que documentava os ferimentos sofridos.
Samuel Crettenand apresentou queixa contra os polícias e solicitou de imediato a preservação das imagens das câmaras de segurança da estação. Inicialmente, a polícia e a companhia de transporte ferroviário suíça afirmaram que as imagens do incidente tinham sido apagadas do sistema. No entanto, o Ministério Público de Berna indicou posteriormente ter apurado, com base numa selecção de imagens de vídeo na sua posse, que Crettenand era responsável pela violência contra os agentes da polícia devido à sua resistência e recusa em obedecer às ordens. O advogado do ativista recorreu e, um ano depois, as imagens das câmaras de segurança da estação foram finalmente acrescentadas ao processo. As imagens mostram os três polícias à paisana. Embora não usassem distintivos, é evidente que eram conhecidos pelo serviço de segurança privada da estação e pela polícia de Berna. Os sete homens agiram em conjunto para algemar o ativista pela paz.
Crettenand é informado de que não existem imagens do que se passou na célula onde foi agredido pela polícia, alegadamente porque não há ali câmaras de segurança. “Para mais, durante a abordagem registada pelas câmaras de estação, os agentes de segurança da ferroviária mandaram-me mudar de lugar, o que só depois percebi servir a que a câmara me filmasse unicamente a mim e não registasse o que eles faziam.”
“É muito difícil a um cidadão defender-se de um Estado que faz batota,” sublinha, acrescentando que recorreu ao tribunal federal, mas que este considerou que a polícia não fez nada de errado, uma vez que Crettenand não tem provas.
Durante o processo, o ativista questionou o polícia que o agrediu sobre a identidade dos agentes à paisana que integraram a operação e sobre a estrutura policial a que pertencem. Este recusou responder. Negou também qualquer agressão, afirmando simplesmente feito uma massagem a Samuel Crettenand para verificar o seu estado de saúde.
“Há que saber que tudo isto se passou quando a chefe da polícia federal suíça era Nicoletta della Valle, um cargo que assumiu durante dez anos, até janeiro de 2025. Poucos meses depois, foi contratada pela empresa de investimento israelita Champel Capital, para apoiar a angariação de fundos a investir em empresas israelitas que operam nas áreas da segurança e defesa,” ressalva o militante pacifista.
Champel Capital foi cofundada por Amir Weitmann, membro do Likud, o partido do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. A ex-chefe da polícia federal suíça integrou o conselho consultivo dedicado à angariação de fundos e do qual fazem parte figuras como Kobi Shabtai, ex-inspetor-geral da polícia israelita, Yoav Har-Even, ex-Diretor Executivo da fabricante de armas israelita Rafael e executivo da Swiss Innovation Forces, a agência de inovação do exército suíço. A Champel Capital contratou também uma das grandes figuras do exército israelita: Giora Eiland, major-general na reserva, antigo chefe do Conselho de Segurança Nacional de Israel. Eiland é citado mais de trinta vezes na acusação de genocídio apresentada pela África do Sul contra Israel perante o Tribunal Internacional de Justiça.
Da Marcha Global para Gaza à Global Sumud Flotilla
Depois da greve de fome, o ativista suíço sentiu-se desesperado ao ver que o genocídio continuava sem que houvesse qualquer meio de agir. E foi então que um francês propôs uma marcha rumo a Gaza.
“Achei uma excelente ideia,” diz Crettenand. “Só que o movimento começou no TikTok, com as pessoas a esconderem-se atrás de pseudónimos. E quanto mais avançávamos, menos se sabia desta pessoa, o fundador original da marcha, que dizia chamar-se Mehdi. Eu ainda não tinha conseguido descobrir a sua identidade nem encontrá-lo, e ele queria que eu me tornasse o porta-voz do movimento. E eu disse: se não conheço o fundador, não posso envolver as pessoas, vai ser perigoso.”
Havia o receio que este indivíduo de identidade obscura, possivelmente ligado à direita francesa, fosse alguém controlado pelos serviços secretos franceses. “Por essa altura estava em contacto com um médico radicado em Valais, na Suíça, que tinha feito missões médicas em Gaza, o Dr. Hicham El Ghaoui. Decidimos avançar com um movimento democrático, com delegações de cada país. O que se fez de certo modo contra a vontade do fundador, que não gostou nada da ideia.”
Crettenand assumiu as funções de coordenador e porta-voz da Marcha Global para Gaza. Conta que a organização da marcha exigiu um mês e meio de um trabalho muitíssimo intenso. “Fomos submetidos a todo o tipo de pressões imagináveis. Espionagem, suborno, tentativas de infiltração por parte de falsos jornalistas que nos seguiram durante semanas. Percebemos que algumas pessoas estavam ali para nos armar uma cilada.”
Entre 3.000 e 5.000 pessoas de mais de 80 países aterraram no Egito em junho de 2025 com a intenção de partir do Cairo em autocarros até ao norte do Sinai e depois caminhar cerca de 48 quilómetros pela península desértica até ao lado egípcio da fronteira com Gaza, em Rafah, sem no entanto planear entrar no enclave devastado pela guerra.
O fracasso da marcha, em consequência da repressão das autoridades egípcias, provocou a criação da Global Sumud Flotilla, com o envolvimento do ativista hispano-sueco de origem palestiniana Saif Abu Keshek e da ativista sueca Greta Thunberg.
“Passado um mês e meio, tínhamos cerca de cinquenta barcos,” recorda Crettenand. “Foi necessário encontrar financiamento e instalar sistemas informáticos, formar as pessoas à não-violência, encontrar barcos, certificá-los e verificar se estavam em condições de navegar, obter as licenças de navegação necessárias. Foram três meses de trabalho, dia e noite, entre o meu compromisso com a marcha e a minha chegada à prisão em Israel, depois da flotilha ter sido interrompida e termos sido raptados e presos pelo exército israelita.”
A organização da flotilha foi um esforço extremamente violento e desgastante. “A marcha envolvera milhares de pessoas, mas na primeira flotilha, na qual eu era responsável pelos registos, registámos 32.000 pessoas. E quase um terço delas queria embarcar nos barcos, são decisões muito difíceis de tomar. Era preciso considerar as outras delegações, os movimentos, as tendências políticas dentro de tudo isto,” diz Samuel Crettenand.
A assembleia na Tunísia no dia 1 de agosto de 2025 reuniu centenas de pessoas, de todos os países, de todos os continentes, e de todas as classes sociais. “Havia muçulmanos bastante tradicionais na sua prática religiosa, mas também pessoas LGBTQIA+, membros de sindicatos e pessoas do sector financeiro que queriam contribuir para este esforço,” salienta. “Foi um milagre ver todas estas pessoas unir esforços. Cada delegação angariou fundos e conseguimos financiamento. Era verdadeiramente o despertar da humanidade, transcendendo ideologias e sensibilidades políticas. Foi aí que acreditei realmente que poderíamos alcançar algo.”
Foi também um milagre ninguém ter morrido, frisa Crettenand. “Éramos constantemente sobrevoados por aviões militares israelitas. A flotilha foi bombardeada na costa de Chipre com explosivos capazes de partir um mastro e uma vela inteira. Se um deles tivesse atingido alguém, seria morte certa. Barcos da flotilha foram bombardeados no porto de Tunes, mas as autoridades tunisinas tentaram encobrir o sucedido dizendo que os coletes salva-vidas se incendiaram por causa de um cigarro, embora existam vídeos de explosivos a serem lançados por drones.”
Dois oficiais dos serviços de informação norte-americanos disseram depois à CBS News, sob anonimato, que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, tinha aprovado os ataques e que os drones foram lançados a partir de um submarino.
O barco à vela Mango em que viajava o ativista suíço foi atacado entre a Grécia e Creta, numa zona onde os barcos de recreio fazem cruzeiros. “Tudo muito claramente coordenado com a NATO e com a Grécia envolvida. O governo suíço não mexeu um dedo e os jornalistas mal disseram uma palavra,” sublinha Crettenand.
O objetivo principal dos ataques israelitas era destruir o máximo de barcos, conscientes de não disporem de equipamento e meios humanos suficientes para os interceptar a todos. “Por isso, na segunda flotilha, prenderam de imediato os responsáveis. E torturaram-nos nos navios, no mesmo local ao largo da costa de Creta, com o aval da Grécia e da NATO,” explica.
Os ativistas da segunda flotilha foram recebidos com um tratamento muito mais brutal que aquele dado aos da primeira. “A opinião pública europeia não estava ainda suficientemente preparada,” diz o militante pacifista. “Estive mais de seis dias na prisão. Ameaçavam-nos com cães, com armas, apontavam-nos lasers constantemente à cabeça, etc. Mas tínhamos a certeza de que não iriam além disso. Na vez seguinte, não hesitaram em submeter os ativistas a abusos físicos muito severos e a violações sistemáticas dos seus direitos.”
A cumplicidade dos governos ocidentais
Samuel Crettenand diz ter entendido durante a greve de fome que o genocídio dos palestinianos é um genocídio ocidental e que a Suíça é totalmente cúmplice. “Foi para chamar a atenção para a cumplicidade dos nossos governos ocidentais que participei na criação da marcha e da flotilha. Mas percebi que há trabalho a fazer na Suíça para denunciar a colaboração com Israel,” sublinha.
Crettenand confrontou já diretamente por duas vezes o Ministro suíço dos Negócios Estrangeiros, Ignazio Cassis, pelas posições que este tem assumido a favor de Israel. Da última vez, por ocasião da festa nacional suíça, dia 1 de agosto. O militante pacifista aproximou-se de Cassis, enquanto o filmava, para denunciar a responsabilidade do chefe do Departamento Federal dos Negócios Estrangeiros da Suíça no genocídio perpetrado por Israel em Gaza.
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“É-me insuportável que as nossas autoridades e todos os nossos conselhos federais permaneçam em silêncio sobre o genocídio,” frisa Crettenand. “Além disso, há várias figuras proeminentes que representam verdadeiramente o lobby sionista na Suíça e o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros tem infelizmente um papel decisivo nesta manobra política. Tive a oportunidade de lhe dizer que é cúmplice de genocídio e que será levado à justiça mais cedo ou mais tarde.”
No início de 2026, Ignazio Cassis foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional por 25 advogados suíços por cumplicidade em crimes cometidos por Israel em Gaza. O ministro dos Negócios Estrangeiros suíço é acusado de cumplicidade em crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. De acordo com este grupo de advogados, Cassis deveria ter tomado todas as medidas ao seu alcance para impedir a prática de tais crimes por parte de Israel e, no mínimo, não os incentivar de forma alguma, o que não fez.
Os ministros da Defesa suíço e israelita assinaram um acordo de cooperação militar em 2013. E o Banco Nacional Suíço investe milhares de milhões de francos suíços em armamento usado por Israel. “Os investimentos dos fundos de pensões suíços nessas empresas têm um custo direto para os palestinianos que estão a morrer por causa disto,” remata Samuel Crettenand. “Mas para nós na Suíça, o sofrimento dos palestinianos traduz-se num benefício. A eficácia e eficiência destas armas permite-nos desfrutar de uma melhor reforma e de um nível extra de conforto.”
Nelson Pereira
Samuel Crettenand recorreu a uma angariação de fundos para cobrir as despesas de processos legais. Quem deseje contribuir pode fazê-lo através desta página web:
https://happypot.ch/fr/cagnottes/denoncer-le-genocide-des-enfants-de-gaza-nest-pas-un-crime-767271524913694





