11 contra 11, mas a realidade fica à porta

por André Domingues
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Há mais de quatro décadas que sou frequentador dos estádios de futebol em Portugal. Digo-o porque é a única forma honesta de continuar este texto e porque me qualifica para o que vem a seguir. 

Quando se vai a um espectáculo de ilusionismo, ninguém acredita genuinamente que o ilusionista tem poderes. A realidade fica à porta. Há um compromisso e consentimento para o engano. Ninguém paga bilhete para ir ver coelhinhos ou pombos a esvoaçar de dentro de um lenço. Entra-se no compromisso à espera do prestige, do terceiro acto, daquele momento em que o impossível acontece. Vai-se deliberadamente para ser iludido e o prazer está precisamente nisso.

Guy Debord chamou a algo semelhante a Sociedade do Espectáculo. A ideia, simplificada até à última letra, é que a vida social moderna se organizou em torno da contemplação passiva de representações que substituíram a experiência real. O espectáculo não engana ninguém à força. É consentido, desejado e pago.

Johan Huizinga, no seu Homo Ludens, acrescentou uma peça que interessa ainda mais a este argumento. O jogo, dizia ele, cria um círculo mágico, um espaço temporário com as suas próprias regras absolutas, suspensas da realidade exterior. Dentro desse círculo, o batoteiro é tolerado. Os outros jogadores são surpreendentemente indulgentes com ele porque, no fundo, o batoteiro ainda finge respeitar o jogo. Na realidade o batoteiro joga com as regras do jogo e vai mais além, dobrando-as. É o Chico Esperto que ainda finge estar dentro do círculo. Numa última referência à literatura, e prometo que não se alonga mais que isto, diria que Umberto Eco foi ainda mais directo. Escreveu que a histeria do futebol e as discussões infindáveis sobre desporto substituem, convenientemente, o discurso político. Mais do que elaborar esta ideia como metáfora, consegue-se confirmação inequívoca deste diagnóstico várias vezes ao dia, seja em mesas de café ou nos media convencionais.

O futebol português vive numa eterna suspeição sem resolução nem retorno. Isto vai muito além de uma mera fórmula de escape para adeptos ressentidos de um clube que não ganhou o último jogo. É uma cultura tão profundamente instalada que começa nos Benjamins e Traquinas de cinco e sete anos. Quem já não os viu acabarem os jogos em lágrimas, convictos de que o árbitro queria que perdessem, de que o resultado estava combinado e que os “outros” estavam a ser protegidos? Ninguém os convence do contrário, não por teimosia nem desonestidade. A “inocência” parece desaparecer com o corte do cordão umbilical. Com ela, são dados como nados mortos a crença, a esperança e o desportivismo. O que aprendem, antes de tempo, é que é assim que o espectáculo sistémico funciona e que a racionalidade não é para aqui chamada. “Estão todos contra nós!” ou “Contra tudo e contra todos!” são os chavões vulgares do regimento clubístico ou da falange de papás e mamãs que não admitem que o seu filho perca um jogo ou não seja a próxima reencarnação de Cristiano Ronaldo. Debord diria que a representação precede a experiência. Antes de jogarem um único jogo a sério, já todos conhecem o guião.

É Huizinga ao contrário. Não há um batoteiro tolerado dentro do círculo mágico. Há um sistema onde a acusação repetitiva de batota pelo outro é uma regra escapatória não escrita que se transforma em lenga-lenga ou mantra quase religioso que todos sabem recitar melhor que qualquer Avé Maria.

O que disto resulta é que a suspeição não passa a ser um ruído do espectáculo. A suspeição passa a ser, ela própria, o espectáculo. Debord não precisava de ter assistido a um único jogo de pontapé na bola para o perceber e destilar teoria.

A quem serve este estado de coisas? Aos três grandes clubes, em primeiro lugar, como escudo permanente contra a responsabilização pela sua própria incompetência de gestão. Quando tudo é suspeito, nada é analisado. Baralha e volta a dar. Serve aos media e aos seus assalariados, que construíram carreiras inteiras sobre o combustível inesgotável da conspiração. Serve aos dirigentes, essa classe notável de que PC, LFV e BC são apenas os exemplos mais fotogénicos. AVB, RC e FV são refracções lumínicas de uma luz que entrou torta e saiu ainda mais torta. O ângulo mudou, o desvio ficou.

Todos navegam há décadas num sistema onde a accountability é uma palavra estrangeira que continua sem tradução prática. O espectáculo precisa de vilões reconhecíveis tanto quanto precisa de heróis. Todos cumprem o seu papel e todos sabem as falas; atiram pedras de ironia infantilizada e escondem-se atrás de quadros de moralidade, honra e valores superiores que fazem corar com vergonha alheia o idiota que sou.

A discussão infindável sobre o “campo inclinado”, “árbitro comprado”, mantos vermelhos, azuis ou verdes, substituem a gestão, a ética, a transparência e a responsabilidade. É uma substituição muito eficiente. Nunca há mérito do outro e mesmo quando ele é incontornável há sempre um “sim, mas se…”.

A arbitragem é a peça central deste teatro. Genericamente má, corporativista, com casos de corrupção documentados e punições que nunca chegaram a ser verdadeiramente dissuasoras. Mas o problema mais profundo não é a arbitragem em si. É que já ninguém acredita genuinamente que pode ser diferente. A cultura instalou-se há tempo suficiente para se tornar referencial. Se sempre foi assim, se o meu pai já dizia o mesmo, se os casos se acumulam há décadas sem consequência real, então a questão deixou de ser moral e passou a ser pragmática. É assim, ponto. O adepto irrita-se, perde a cabeça quando o clube perde, tem direito a isso, é o seu momento de catarse legítima, como quem nunca diz palavrões mas sabe exactamente para que existem. E depois passa. E volta no próximo jogo. Porque a rendição individual de cada um de nós é o que mantém o sistema de pé. Este “não há volta a dar” é uma escolha que se repete cem mil vezes por jornada.

Depois chegou o VAR. A promessa era a transparência, a objectividade, o fim da dúvida. O que se instalou foi mais sofisticado e infinitamente mais perverso. Agora há tecnologia a confirmar as decisões, o que as torna simultaneamente incontestáveis na forma e ainda mais suspeitas no fundo. Debord não podia ter escrito melhor argumento. O espectáculo atingiu o seu momento de maior perfeição quando a tecnologia criada para o desmistificar se tornou no seu instrumento mais eficaz.

A Federação e a Liga assistem. São o pai que nunca encontra defeito no filho e quando o encontra encolhe os ombros, culpa o enquadramento e o comportamento dos amigos.

O adepto, esse idiota voluntário de que faço parte com orgulho relativo, é cúmplice total. A suspeição passa de pai para filho como herança familiar, confirmada à mesa do jantar, sedimentada em gerações de certezas sem provas e provas sem consequências. Ninguém nos enganou. Entramos pela porta sabendo ao que vamos, deixamos a racionalidade no bengaleiro e seguimos deliberadamente para o engano. Exactamente como na plateia do ilusionista.

A diferença é que o ilusionista é honesto sobre o que faz. No meu tempo de vida, o futebol português nunca o foi. Instala-se a suspeição como produto principal, vende-se como drama, monetiza-se em direitos televisivos, comentadores, cativos e camisolas. E assim vive-se um problema que já ninguém consegue resolver porque ninguém tem interesse real na resolução. Os chineses ou os árabes antigos diriam que qualquer problema tem solução ou então se não tem solução não é um problema. Grande açorda que vai aqui. 

A “solução mágica” traria incerteza quanto ao desfecho e as cadeiras do poder já não garantiriam as migalhas do costume aos mesmos de sempre. A ilusão é chegar àquele terceiro acto, ao prestige, já nem sendo preciso confirmar se é coelho ou pombo que vai sair da cartola; o suspense deste espectáculo societário é saber se o animal é vermelho, azul ou verde.

Sem espectáculo não há nada. Nem clubes grandes, nem media, nem dirigentes históricos, nem árbitros corporativistas. Este conjunto de actores e figurantes tem de ter futuro assegurado. A competência, tal como a racionalidade, também não é para aqui chamada. O que realmente importa é a manutenção de um status quo antigo e inabalável, com uma linha mestra simplória: manter idiotas como eu dispostos a gastar milhares de euros anuais para entrar numa sala onde já sabem que vão ser enganados.

O que um idiota como eu acredita, com aquela crença mesmo profunda e que faz doer os dedos de tão apertadas que estão as mãos, é que a bola é redonda. Às vezes faz coisas que a gravidade não antecipa. É a única parte disto tudo que ainda me parece genuína.

André Domingues