A utilização dos media ao serviço da propaganda de governos e interesses financeiros é uma história antiga e só não se dá conta dos limites traçados quem nunca questionou o poder. Como dizia o analista político estadounidense Michael Parenti, “só sentirá a coleira à volta do pescoço quem se afastar da estaca.”
Quem está fora das redacções não tem normalmente ideia de como se processa o sistema de controle e formatação dos jornalistas. Apoia-se num conjunto de vectores diversos.
Não é por acaso que jornalistas veteranos, com experiência e conhecimento acumulado, são substituídos por jovens em situação de precariedade, facilmente moldáveis, sem percepção da instrumentalização de que são alvos. A fase seguinte, já em marcha, é a implantação de uma IA que está aí para os descartar a eles também. Para tornar as coisas mais desconcertantes, há quem se entusiasme com a transformação, como na anedota do peru que, excitado, festeja a aproximação do Natal.
Há também o elemento censura, sob a forma de uma pressão de cima para baixo que, tal como a cerca elétrica para gado, acaba por criar uma barreira psicológica. Mas ainda mais perniciosa é a autocensura, quando o jornalista se impõe restrições maiores porque na ânsia de agradar aos superiores escolhe exagerar.
O receio de perder o emprego é outra peça importante deste sistema. Em certos casos, para evitar correr riscos, o jornalista decide sintonizar inteiramente com o que lhe parecem ser as expectativas dos superiores. Como dizia Upton Sinclair, “é difícil fazer um homem compreender algo quando o seu salário depende de ele não compreender”.
O casting é também decisivo. Terrível é a redacção onde lugares de chefia sejam ocupados por indivíduos inseguros porque conscientes de não serem brilhantes. Cada subalterno que suspeitem de ser mais capaz, vai deixá-los em pânico e tornar-se obstáculo a afastar. Desesperadamente agarrados ao poder, vão rodear-se de aduladores medíocres e subservientes, de preferência sem paixão pelo jornalismo. O resultado é a degradação da qualidade jornalística da equipa.
Numa redacção onde um tal clima se instala, quem questione o mais pequeno detalhe da linha editorial é olhado como o desmancha-prazeres que estraga o bom ambiente.
Melhor que isto, só a IA.
Nelson Pereira





