Ninguém se envergonha?

por Nelson Pereira

A indiferença de governos e sociedades face ao genocídio perpetrado por Israel em Gaza há já dois anos e meio, em curso apesar de menos visível devido às novas frentes de guerra abertas no Líbano e Irão pela dupla EUA-Israel e seus aliados, é frequentemente ressentida como algo de inédito, especialmente quando pensamos ao genocídio Nazi alemão dos judeus da Europa de Leste.

Submetida a décadas de propaganda e desinformação, a opinião pública integrou uma narrativa segundo a qual o genocídio de seis milhões de judeus foi, desde o primeiro momento, combatido pelas sociedades ocidentais e seus dirigentes. Testemunhas hoje nos écrans dos nossos telemóveis de um genocídio executado com os maiores requintes de sadismo pelo exército israelita, habituámo-nos a pensar que a indiferença das sociedades de consumo é algo inédito. Não foi assim com os judeus europeus, acreditamos.

Nada mais falso. A inumanidade fez sempre parte da humanidade. Tal como o heroísmo e o apego não negociável à dignidade, já agora, contrariamente ao que é corrente pensar-se na bolha capitalista, onde reina a néscia convicção de que “todo o homem tem um preço”.

As sociedades de hoje e os seus líderes políticos repetem aquilo que os seus avós fizeram. Olham para o lado enquanto milhares de seres humanos são exterminados em festivais de crueldade, sejam eles crianças, mulheres ou idosos. São sempre minoria, aqueles que não se conformam. Ou que para protestar contra a indiferença e inação do mundo renunciam à própria vida, num gesto derradeiro de solidariedade com os inocentes, como Aaron Bushnell.         

Vivemos submergidos por mitos, habitantes da caverna de Platão. Foram exterminados pelo regime Nazi alemão e seus colaboradores seis milhões de judeus, 250 mil ciganos, centenas de milhares de deficientes e milhões de prisioneiros de guerra e civis soviéticos. Só na Polónia os alemães mataram entre 5,6 e mais de 6 milhões de cidadãos, cerca de 17% da população, dos quais cerca de 3 milhões era judeus polacos. Porque os poderes ocidentais olharam para o lado. Ou mais precisamente, recusaram agir.

Em Dezembro de 1939, Szmul Mordechaj Zygielbojm, um activista sindical judeu do Bund, conseguiu escapar da Polónia ocupada pelos alemães com a missão de alertar os líderes europeus sobre o extermínio dos judeus polacos e solicitar uma acção militar para travar o genocídio. Perante a indiferença e sentindo-se impotente, suicidou-se a 12 de maio de 1943 em Londres, quando os últimos combatentes estavam a ser assassinados no Gueto de Varsóvia.

Szmul Zygielbojm – Public Domain

Szmul Zygielbojm deixou três cartas de despedida dirigidas ao seu irmão Fajwel, a membros do Bund nos Estados Unidos e ao presidente polaco Władysław Raczkiewicz e ao primeiro-ministro Władysław Sikorski.

Deixou palavras ao irmão que ecoam do abismo de angústia e impotência em que se encontrava. “O céu está frio e silencioso como as pessoas lá em baixo… Indiferentes à nossa tragédia, todas as noites vão dormir nas suas camas quentes. Isso dilacera o meu coração e a minha mente como uma espada. As suas vidas em agonia, as suas mortes, são uma desgraça para todos neste mundo, e ninguém se envergonha?”

Na carta dirigida ao Presidente e ao Primeiro-Ministro da Polónia, escreveu: “Não posso ficar em silêncio nem viver enquanto os últimos restos do povo judeu, que represento, são assassinados. Os meus camaradas no Gueto de Varsóvia tombaram com armas nas mãos, na sua última luta heróica. Não me foi dada a hipótese de morrer como eles, ao lado eles. Mas pertenço-lhes, às suas valas comuns. Com a minha morte, desejo expressar o meu mais profundo protesto contra a inacção com que o mundo assiste e permite a destruição do povo judeu. Sei o quão pouco vale a vida humana, sobretudo agora. Mas, como não consegui alcançar esse objetivo em vida, talvez a minha morte desperte da letargia aqueles que podem e devem agir agora, para salvar, no último instante possível, esse punhado de judeus polacos que ainda restam vivos.”

Szmul Zygielbojm – suicide letter 1943

Ontem os judeus, hoje os palestinianos, os libaneses, os iranianos.

“Então vieram buscar-me
E não havia mais ninguém
Para falar por mim” (*)

“Nunca mais” é sempre agora.

* de “Primeiro Vieram”, do Pastor Martin Niemöller

Nelson Pereira