O artista multidisciplinar polaco Igor Dobrowolski condenou publicamente o genocídio em Gaza em diversas ocasiões através de performances artísticas e ações de protestos. Incapaz de permanecer indiferente ao massacre de inocentes, Dobrowolski adoptou expressões artísticas públicas que deram voz a estes sentimentos. “A arte tem de testemunhar o sofrimento humano”, disse Dobrowolski ao Blindspot.
Num protesto silencioso em frente ao campo de concentração alemão de Auschwitz, em 2024, tomou posição com um cartaz que dizia: “Israel está a cometer genocídio em Gaza” e uma bandeira palestiniana com as palavras “Nunca mais, é para todos”. Dobrowolski afirmou depois nas redes sociais ser sua convicção que “a maior coisa que um indivíduo pode fazer para honrar a memória das vítimas do Holocausto é opor-se ativamente a tais crimes, no presente ou no futuro”.
Numa das suas performances, intitulada “O Exército Mais Moral do Mundo”, tirava uma selfie em uniforme militar em frente a um berço vazio, sentado numa bicicleta de criança.
Na inauguração da sua exposição “Com Profunda Simpatia”, em Varsóvia, na Polónia, em outubro de 2024, Dobrowolski ajoelhou-se durante sete horas no chão de betão ao lado de mortalhas infantis, com os olhos vendados e as mãos atadas atrás das costas com abraçadeiras de plástico, como os palestinianos nos inúmeros vídeos partilhados online pelos soldados israelitas durante as operações militares em Gaza.
Em abril de 2024, Dobrowolski caminhou em silêncio diante da embaixada da Alemanha em Varsóvia, empunhando um cartaz que dizia “Alemanha, é o teu segundo genocídio. Desculpa, o terceiro”.
Em março de 2025, Igor Dobrowolski realizou uma manifestação individual em frente à embaixada de Israel em Varsóvia, segurando cartazes onde se lia “Isr@el cobardes genocidas”.
Protestando contra a recusa do vice-primeiro-ministro polaco, Radoslaw Sikorski, em reconhecer o genocídio em Gaza, Dobrowolski esteve várias horas ajoelhado em silêncio, de olhos vendados, em frente à residência privada de Sikorski em Chobielin, em Outubro de 2025, rodeado de mortalhas infantis e de um cartaz com as palavras “Sikorski, cúmplice dos perpetradores do genocídio”.
“O que teria eu feito durante o Holocausto?”
A decisão de tomar uma posição pública não foi fácil, diz Dobrowolski, mas acrescenta que virar as costas ao que se passava em Gaza seria trair as responsabilidades de um artista. “Sentia que não conseguiria olhar-me ao espelho e chamar-me artista se permanecesse em silêncio.”
“Como disse Aaron Bushnell (*), toda a gente pensa que, durante a escravatura, defenderia os escravos negros. Agora sabemos o que teria acontecido. É a mesma coisa aqui e agora, e a maioria das pessoas simplesmente decidiu ignorar”, sublinha.
Numa série de campanhas de arte urbana em diferentes países, Dobrowolski utilizou frequentemente a sua arte para denunciar o consumismo ocidental, o impacto nocivo da moda rápida e o cinismo da indústria de armamento. “Quando comecei a pintar, percebi que podia criar obras mais sociais, que tivessem impacto nas pessoas e pudessem mudar algo no mundo. Sabia que, como artista do Ocidente, tinha uma voz, por isso decidi usar esse privilégio para sensibilizar as pessoas para as questões sociais”, diz.
Perante as imagens que chegaram de Gaza após 7 de outubro de 2023, sentiu que tinha de fazer alguma coisa. “Era como olhar para Auschwitz e ver todos os dias judeus polacos a serem queimados, sem que ninguém fizesse nada. Isto deveria ser normal?”
De carácter apreensivo e introspetivo, Igor Dobrowolski fugiu sempre a mostrar-se em público, nunca fez performances artísticas. “Optava por simplesmente partilhar ideias que sabia que se poderiam espalhar pelo mundo e ter repercussões”, recorda Dobrowolski. “Nesse dia, estava sentado em silêncio, e de repente esta ideia ocorreu-me, atingiu-me em cheio. Não a planeei, simplesmente veio, dominou a minha mente. Eu disse: ‘Caramba, não quero fazer isto.’ Era uma questão de ousadia, e foi muito difícil. Senti muito medo em muitas situações, mais tarde. Ainda sinto esse medo com frequência, mas, graças à grande inspiração que recebo de pessoas que estão a viver aquele inferno, porque nos inspiramos mutuamente, não quero parar de falar sobre isso.”
Nessa altura, as obras de Igor Dobrowolski, que abrangiam um espectro muito vasto, desde a pintura abstrata e hiper-realista, à escultura, à fotografia e ao baixo-relevo, já tinham conquistado um amplo reconhecimento internacional. Mas algumas portas fecharam-se definitivamente depois de ele ter começado a denunciar o genocídio israelita e a cumplicidade ocidental.
Começou a ser evitado por galerias e censurado nas redes sociais. Os colecionadores vinham dizer-lhe que tinha um grande potencial, mas que, a partir daquele momento, a sua carreira estava terminada. “Não me surpreendeu”, recorda Dobrowolski. “Aconteceu com muita gente: a partir do momento em que se manifestaram contra o genocídio ou o apartheid em Israel, fecharam-se portas. Jornalistas, intelectuais e académicos foram despedidos, muitas vezes banidos de conferências e universidades, artistas tiveram as suas exposições e performances canceladas. Mas nada que possa ser comparado ao sofrimento e desespero incomensuráveis do povo de Gaza.”
Após a primeira performance de Dobrowolski em Varsóvia, que durou sete horas, a curadora levou-o para outra galeria. O artista permaneceu amarrado durante todo o percurso, de uma galeria à outra, ajoelhando no passeio em frente a empresas que apoiam Israel, como a McDonald’s e a Starbucks, mas também em frente ao Palácio Presidencial. “A dada altura, enquanto estava ajoelhado, a minha curadora, que interpretava um soldado israelita ou simplesmente um executor, começou a chorar. Emocionou-se muito ao ver-me ajoelhado durante várias horas. Depois, houve muitas pessoas que vieram dizer-me que a performance as fez perceber o sofrimento dos palestinianos. Assim, teve algum tipo de poder provocador, como se eu tivesse contrabandeado o sofrimento palestiniano para o nosso mundo ocidental, onde preferimos acreditar que tudo é agradável e cor-de-rosa.”
Nelson Pereira
* No dia 25 de fevereiro de 2024, Aaron Bushnell, um militar da Força Aérea dos EUA de 25 anos, ateou fogo ao seu próprio corpo em frente à embaixada israelita em Washington. Bushnell quis protestar contra a cumplicidade dos EUA na guerra genocida de Israel em Gaza. As suas últimas palavras, antes de o seu corpo desabar em chamas, foram "Palestina Livre". Levado para o hospital, não resistiu aos ferimentos. Mais cedo nesse dia, Bushnell publicara esta mensagem na sua página de Facebook: “Muitos de nós gostamos de nos perguntar: 'Que teria eu feito se tivesse vivido durante a escravatura? Ou no Sul segregacionista? Ou durante o apartheid? O que faria se o meu país estivesse a cometer um genocídio?' A resposta é: ‘Está a fazê-lo. Agora mesmo.’”



















