Paulina Chiziane: O mundo precisa de mais mulheres a escrever

por Luis Guita
Paulina Chiziane © Luis Guita

A escritora Paulina Chiziane é uma das figuras mais proeminentes da literatura moçambicana contemporânea. Foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance ao lançar, em 1990, o livro de estreia Balada de Amor ao Vento.

Chiziane considera-se contadora de estórias e não romancista, inspirada pelos contos à volta da fogueira, que diz terem sido a sua primeira escola de arte.

Nascida em 1955 em Manjacaze, a escritora cresceu numa família que cultivava princípios anticoloniais, e teve uma juventude política ativa, participando de movimentos pela independência. As suas obras não evitam temas difíceis como o impacto da poligamia na sociedade ou a perpetuação de ciclos de violência por dinâmicas de poder impostas pela colonização. 

Sentindo o pulsar do mundo, Paulina Chiziane vê a afirmação das mulheres na literatura como uma etapa crucial e frisa que “as mulheres têm que escrever porque o Mundo está desequilibrado”.

A infância, a condição das mulheres, os sonhos abafados, o discurso redutor de filosofias e religiões, o vício de escrever e as recaídas, as prisões, a liberdade, o equilíbrio entre géneros, o prazer da escrita e o papel de quem escreve, são alguns dos temas que foram abordados nesta entrevista com a escritora durante uma visita a Lisboa.

Em 2021, Chiziane tornou-se na primeira mulher africana a vencer o Prémio Camões, o mais prestigiado galardão literário de língua portuguesa. Um prémio que mudou “muita coisa” na vida da autora. “As pessoas já me levam a sério. Param para me ouvir, mesmo que não queiram. Precisam de ser bem vistos. Acabam me ouvindo e, se calhar, acabam entendo a razão de ser de tudo aquilo que eu faço.”

Paulina Chiziane tem obras traduzidas em França, Itália, Alemanha, Espanha e EUA. 

Em 2003, com o livro “Niketche, uma História da Poligamia” ganhou o prémio José Craveirinha (Prémio atribuido aos autores moçambicanos pela AEMO, a Associação dos escritores Moçambicanos).

Luis Guita entrevista Paulina Chiziane

Paulina Chiziane, de onde é que vem o seu sonho, a sua vontade de escritora? Será de ouvir histórias de sua avó à volta da lareira? 

Paulina Chiziane: Sim e não. Sim, porque foi de lá que eu aprendi a beleza do conto. Mas éramos tantas crianças, de todas elas quem ficou com gosto, pegou mesmo, fui eu. Os meus irmãos, meus primos, amigos, não tiveram o mesmo gosto. Então, até parece que eu tenho, assim, um dom natural para fazer isso.

E logo, em português, que é uma língua que não é a sua língua primeira, começou por ser chope e ronga. Qual a influência? Pelo que eu sei, só começou a aprender português aos seis anos. Há influência do chope e do ronga na sua escrita?

Paulina Chiziane: Absolutamente!  Às vezes dou por mim a ver a estrutura lógica da frase, que não é a estrutura portuguesa, mas é a estrutura de uma língua que não é português. Neste caso, ou ronga ou chope, porque nós estruturamos as coisas de forma diferente. E é isso que faz, assim, uma ligeira diferença entre a língua portuguesa escrita por uma pessoa que tem o português como segunda língua. 

Antes de se dedicar à escrita, houve a vontade, que foi abafada, de se dedicar à pintura. Como é que isso aconteceu? 

Paulina Chiziane: Sei lá. Eu gostava de pintar, adorava pintar, e gastava material escolar. Para uma família de oito filhos, com um pai pobre … . Eu gastava as aguarelas, o papel, os lápis, tudo isso. Então, o meu pai achou que não, não devia. E não só. Pintura não era coisa de mulher, no tempo que eu cresci. Depois disso, achei que devia fazer pautas de música, e lá ia gastando papel novamente. Então, levei uma sova valente do pai, para parar de gastar. Porque o problema era mesmo gastar.
Tinha direito a ter um caderno, acho que de dois em dois meses, ou uma coisa mais ou menos assim. Então pronto, parei, mas não parei, continuei a escrever. Então, quando meu pai me via escrever, pensava que eu estava a estudar. Então, assim ficou a escrita. 

O que é que colocava nos seus primeiros escritos? 

Paulina Chiziane: Loucuras. Eu, no lugar de fazer o diário com o que aconteceu durante o dia, como faziam as minhas amigas na época, eu divertia-me a tentar escrever os sonhos. Eu fazia o diário dos sonhos. Então, eu sonhei uma coisa e tenho que pôr no papel. Acordava, claro, e começava a tentar lembrar-me daquilo que eu tinha sonhado. E punha-me a escrever. Só que isso também me valeu uma outra sova do meu pai, porque quando era hora de ir para a escola, eu estava atrasada. Porque acordei e estava a escrever coisas que não faziam sentido. Mas eu escrevi. Só que, infelizmente, não sei onde é que se perdeu esse caderno. Foram bons momentos. 

Mas o seu primeiro romance acaba por ser um livro com poucos sonhos e muito de realidade. 

Paulina Chiziane: Muita realidade. Mas, repara, em tudo o que eu escrevo também estou a sonhar com um mundo mais equilibrado. Apesar de estar a descrever a realidade, há um quê de sonho nos meus livros. 

Uma mensagem de esperança? É isso que procura deixar com os seus livros? 

Paulina Chiziane: Tento. Não sei se consigo. Mas é uma mensagem de esperança, sim. Porque um dos meus livros, pouco conhecido, chama-se “Mensagens de Esperança em Tempos de Coronavírus”. É um livro que não teve quase circulação nenhuma, porque escrevi-o em tempos de Covid e não tinha nem sequer como promover. Mas é um livro que agora começa a ser lido. E trabalhei com essas meninas jovens e outras que estão em Moçambique na produção de um disco que se chama “Cantos de Esperança”. E pronto, vou fazendo coisas assim, com esperança de um mundo melhor. 

E é também essa procura de uma esperança que a levou a escrever “A Voz do Cárcere”? 

Paulina Chiziane: “A Voz do Cárcere”… não sei. Mas, quando eu entrei na prisão senti um desespero. E vivi o desespero das outras pessoas. E o mais interessante é que os que estão na prisão têm muito mais esperança de viver, de sair daquela situação, de viver uma vida de luz, muito mais do que as pessoas que nunca entraram numa prisão. Essa é a parte mais bonita da história. 

“A Voz do Cárcere”, que, por acaso, veio quebrar uma promessa sua. Tinha dito que não voltaria a escrever. O que é que encontrou nestas histórias que se viu obrigada a voltar a escrever? 

Paulina Chiziane: É uma realidade gritante, uma realidade por muitos desconhecida.
Começando por mim. Eu sabia que havia prisões mas não imaginava a vida que se levava, nem o imaginário de quem está na prisão. Então, tive o primeiro contacto e achei que devia fazer o registo. Fiz o que eu pude, porque não é fácil trabalhar naquele meio. Mas fiz os registos que pude fazer. Agora, digamos que a escrita, às vezes, é um vício, não é? E todo viciado, de vez em quando, tem uma recaída. Eu tive uma recaída (risos). 

Então quer dizer que, apesar de já ter prometido, entre aspas, não voltar a escrever, depois desta recaída, não quer dizer que não venha a ter outra recaída? 

Paulina Chiziane: Ah, não espero (risos). Mas se eu tiver outra recaída… o que fazer senão satisfazer o vício (risos).

Um dos temas que marcou o seu início enquanto autora foi a condição da mulher. O que é que procurou contar e o que é que ainda falta dizer sobre a mulher, em particular da mulher negra e africana? 

Paulina Chiziane: Há muita coisa para dizer. Eu confesso que, apesar de ter escrito o livro, eu não disse absolutamente nada. Quer dizer, disse muito pouco sobre aquilo que as mulheres são. O mundo profundo, o mundo interior, o sonho delas, aquilo que elas gostariam de ter realizado, é um trabalho que vai sendo feito muito devagar e levará o seu tempo. Então, eu digo que sou simplesmente uma aventureira que também é pioneira nessas matérias. Porque a verdade sobre as mulheres tem que ser um trabalho permanente. 

O que é que a faz falar desse tema? O que é que a faz estar tão preocupada com a condição das mulheres? É o estar subjugada, a falta de perspectivas? O que é que procura trazer ao de cima? 

Paulina Chiziane: Acima de tudo, fazer com que as mulheres sintam o seu poder interior. Porque há mulheres que, por causa de diferentes sistemas, acabam se anulando. Elas não se podem anular. A mulher tem força. Mas as filosofias e as religiões têm um discurso completamente redutor e a mulher acaba ficando para trás, demitir-se da vida, anular-se, enfim. É preciso levantar as mulheres e fazer com que elas descubram o seu ser interior e reconhecer a contribuição que elas dão para a existência da vida de qualquer ser humano.

Esse papel redutor que a religião acaba por ter sobre a mulher será porque são homens que estão à frente dessas religiões e que os livros sagrados terão sido escritos por homens? 

Paulina Chiziane: Pode ser que sim. Não é apenas a religião mas as instituições, quase todas, são instituições patriarcais. Então, isso tudo, o patriarcado, misturado com as religiões e com as nossas tradições, algumas, leva-nos exatamente a esta posição das mulheres. Agora, há uma coisa que eu digo sempre. Se as mulheres estivessem sentadas na mesa para escrever a Bíblia, pode ser que a Bíblia tivesse um começo um pouco mais humano para as mulheres. Porque, pronto, abre-se um livro dito sagrado para dizer que elas são pecadoras, que são criminosas, que são venenosas, não é bom. Eu acho que faltaram mulheres ali. 

Fazendo uma interpretação inversa, até parece que o homem tem medo da mulher e, por isso, faz esse desenho da mulher. 

Paulina Chiziane: Pode ser que sim, pode ser. Mas há sempre um desejo, acho que isso é humano, há sempre um desejo de um sobrepor-se ao outro. Quando as mulheres também estão no poder, os homens que se cuidam. Então, mulheres no poder, será que o mundo será mais justo? Não sei. Homens no poder, é o mundo justo? Não sei. E para onde foi o equilíbrio? Porque a maior parte dos princípios que regem o mundo não são do equilíbrio, mas sim da supremacia de uns sobre outros. Então, se calhar, agora chegou a altura de tentarmos conversar para acabar com a guerra dos sexos. O mundo precisa de equilíbrio, a vida precisa de equilíbrio e não da guerra dos sexos.

Atualmente é uma autora consagrada, mas no início como é que foi? Quais as reações que recebia por falar de sexo e de amor? 

Paulina Chiziane: As piores. Muita gente não me levava a sério e até chegavam a pensar que tudo o que eu escrevia eram heresias, que não mereciam ser escritas. Mas o tempo foi passando e pronto. Hoje a realidade é outra. Mesmo aqueles que duvidavam, agora acabam rendendo-se à realidade. Faço o trabalho, escrevo o que eu posso. No fundo, eu só quero contribuir para que haja um diálogo. Não porque eu quero que aconteça isto ou aquilo, que vá mudar o mundo, não. Só o fato de podermos sentar e dialogar e fazer uma reflexão à volta do nosso relacionamento como seres humanos é uma grande contribuição. 

Entretanto recebeu o mais importante prémio da literatura em língua portuguesa, o prémio Camões. O que é que isso mudou na sua vida? 

Paulina Chiziane: Muita coisa. Primeiro, as pessoas já me levam a sério. Segundo, param para me ouvir, mesmo que não queiram. Precisam de ser bem vistos e acabam me ouvindo e, se calhar, acabam entendendo a razão de ser de tudo aquilo que eu faço.


Como escritora, qual é a mensagem que gostaria de fazer chegar a outras mulheres, às mulheres africanas e, em particular, às mulheres moçambicanas? 

Paulina Chiziane: Eu prefiro fazer uma mensagem para todos. Todas as pessoas, todas as raças e todos os sexos. Que é a seguinte: as mulheres têm que escrever, porque o mundo está desequilibrado. Não é preciso ir longe. Vai à primeira livraria, vai ver que metade do pensamento e metade do saber é assinado com nome masculino. Há poucas mulheres a contribuir nessa área. Nas bibliotecas é a mesma coisa. Então, há um mundo que falta para se criar o equilíbrio, que é o mundo da mulher. Por isso, as mulheres devem escrever.

Qual é o papel do escritor? Neste caso, qual é o papel de uma escritora? Ou melhor ainda, qual é o papel de quem escreve livros? 

Paulina Chiziane: São vários papéis. O primeiro, para mim, é o prazer que eu sinto. O segundo é recolher, resgatar algum valor, seja ele da cultura, da tradição, do quotidiano. Terceiro, preservar. E quarto, para mim, a partir dos textos escritos, provocar um debate e uma reflexão para uma mudança positiva em qualquer sociedade.

Luis Guita