Os vizinhos de Arjun Talwar na Rua Wilcza

por Nelson Pereira
Arjun Talwar © Nelson Pereira

Será que um país pode ser descoberto na rua onde vivemos? Em grande parte, sim, aproximando-nos dos nossos vizinhos, como demonstra o documentário “Cartas da Rua Wilca” (Listy z Wilczej), filmado em Varsóvia por um imigrante indiano, Arjun Talwar.

Arjun deixou Deli com um amigo, ambos determinados a estudar na Escola de Cinema de Lodz. A morte trágica do amigo impulsionou-o numa busca por sentido. De câmara na mão, filmou a vida no microcosmos da rua onde vivia, entre os vizinhos, o porteiro, a merceeira, o carteiro e o sapateiro. Ao aproximar-se daqueles que geograficamente estavam mais próximos, tornou-os humanamente próximos, tecendo laços. Armado com curiosidade, Arjun construiu uma comunidade.

“A motivação para fazer o filme surgiu da necessidade de responder às dúvidas que me atormentavam após a morte do meu amigo e de reagir a isso de alguma forma. Foi muito gratificante transformar as minhas próprias experiências numa narrativa”, disse Arjun ao Blindspot em Genebra, onde o filme foi exibido durante o Festival Internacional de Cinema e Fórum sobre Direitos Humanos.

O filme foi muito bem recebido na Polónia, não só na capital, mas também noutras cidades do país. Os polacos sentiram-se atraídos por um filme que mostrava a realidade dos bairros onde vivem, retratando o quotidiano, algo que raramente interessa ao cinema polaco. Isto, ao mesmo tempo, permitiu-lhes descobrir não só Arjun, mas também outros imigrantes, desde a chinesa Mo ao sírio Feras e ao cigano Oskar.

“A Varsóvia que aparece neste filme está mais próxima da Varsóvia em que vivem do que a cidade que veem noutros filmes polacos, porque o cinema polaco ignora a existência de estrangeiros”, notou o realizador. “A realidade da Varsóvia de hoje não está presente nos filmes, e isso foi algo que as pessoas realmente sentiram, tipo, ‘ok, esta é a minha cidade’, e realmente apreciaram a novidade. Mas também, a minha perspetiva sobre a Polónia como um forasteiro, isso é algo que talvez não tivessem visto antes. E os protagonistas também ficaram muito felizes por ver o filme.”

Wilcza street, Warsaw © Nelson Pereira

Arjun confessou que havia algo de muito gratificante em fazer um filme sobre a história da sua imigração e dar voz a todas estas outras pessoas que sentia terem sido ignoradas na cultura polaca. “Tudo isto deu-me muita motivação para fazer este filme e uma razão para estar lá”, recordou. “Nesse sentido, foi catártico, e o facto de o filme se ter tornado popular na Polónia e a nível internacional foi também outro tipo de catarse, porque sente-se que, de alguma forma, este trabalho tornou estas pessoas visíveis e também deu algum reconhecimento, alguma compreensão à sua própria história pessoal.”

A estreia polaca aconteceu em maio no festival Millennium Docs. “Depois disso, houve muitas exibições em Varsóvia e noutras cidades, e as salas estavam cheias. As pessoas já tinham ouvido falar do filme. Havia muita expectativa em torno dele, o que foi ótimo. Esteve em exibição durante dois meses em Varsóvia e um pouco menos noutras cidades. Por isso, as pessoas gostaram muito”, disse.

Arjun sublinha que o filme não teria existido sem a ajuda de um grupo de amigos. “Éramos basicamente um pequeno coletivo: eu, Bigna Tomschin, que editou e coescreveu o argumento, e Alexander, o meu amigo, que fez a música, e os meus amigos Feras e Mo, que contracenaram no filme. Era um grupo de amigos muito unido a fazer um filme, a maioria dessas pessoas. E assim, conseguimos libertar-nos do sistema e da negatividade da indústria cinematográfica.”

O facto de os polacos acharem que um estrangeiro não consegue compreender a Polónia foi uma vantagem para o filme, descobriu Arjun, “porque estavam a explicar-me a Polónia. O professor de dança, a mulher do quisque de jornais, a terapeuta, todos queriam explicar-me a Polónia. Não se teriam dado ao trabalho de tentar contar-me estas coisas sobre a Polónia e a mentalidade polaca se eu fosse polaco”.

Depois de onze anos na Polónia, está de volta à Índia, a trabalhar num filme de ficção. “Na tradição polaca, o documentário é definitivamente o ponto forte do cinema polaco. Essa é também uma das razões pelas quais me interessei pelo documentário na Escola de Cinema de Lodz. Mas quero ver como é, depois de todas estas experiências com documentários, fazer um filme de ficção.”

Nelson Pereira