Raquel Freire: “Mulheres de Abril” resgata do esquecimento as heroínas antifascistas 

por Luis Guita

A longa-metragem “Mulheres de Abril” da realizadora Raquel Freire celebra as mulheres que durante a ditadura em Portugal lutaram pela liberdade e combateram o colonialismo.

Portugal viveu 48 anos sob o regime autoritário do chamado Estado Novo, a mais longa ditadura da Europa no século XX. As protagonistas deste filme são mulheres que em África e Portugal participaram ativamente na luta antifascista e anticolonialista e até agora estavam esquecidas pela História, disse ao Blindspot Raquel Freire.

Desde 1961 em guerra contra os movimentos independentistas nas colónias portuguesas, o regime ditatorial português foi derrubado pela revolução em 25 de Abril de 1974. O combate pela liberdade foi um percurso longo, e contou com o esforço heroico de muitas mulheres. Raquel Freire quis trazer à luz do dia o testemunho destas mulheres na primeira pessoa. 

Margarida Tengarrinha, Ana Maria Cabral, Helena Neves, Luísa Sarsfield Cabral, Ruth Rodrigues, Teresa Loff Fernandes, Julieta Rocha, Isabel do Carmo, Maria Emília Bederode Santos e Josefina Chantre são as protagonistas deste documentário. Um filme que revela a força de resistência das mulheres que, entre Portugal e os territórios africanos ocupados, lutaram para construir a revolução de Abril, combatendo nas guerras de libertação travadas pelos movimentos independentistas.

“Mulheres de Abril” resgata do esquecimento estas mulheres para lhes dar voz e lhes devolver o lugar que lhes cabe na história.

O documentário teve recentemente ante-estreia no Festival IndieLisboa, onde venceu o Prémio Amnistia Internacional, e está em pré-selecção em vários festivais europeus e americanos.

Mulheres de Abril – cartaz do filme

As raízes deste projeto estão nas histórias familiares de combate antifascista, conta Raquel Freire. Cresceu a ouvir testemunhos e chegou um momento quando se deu conta de que o documentário tinha que ser feito enquanto estas mulheres estão ainda em vida. Queria guardar a memória de cinco décadas de resistência, em particular para que pudesse sobreviver e ser transmitida às gerações mais novas, que a desconhecem.

“O 25 de Abril não foi feito num dia. O Salgueiro Maia não acordou de manhã a dizer, hoje vou chamar os meus amigos e fazer o 25 de Abril,” sublinha. “Esta luta pela liberdade, tanto em Portugal como em África, estava por contar. Sempre que era contada era só por homens e sobre homens.”

A realizadora confessa que se viu confrontada com o dilema difícil de escolher um punhado de mulheres dentre muitas dezenas de heroínas anónimas que consagraram as suas vidas à luta pela liberdade. Quis ter o máximo de representatividade possível. “Que houvesse o máximo de pluralidade e de representatividade. Porque temos mulheres portuguesas, temos mulheres cabo-verdianas, temos mulheres guineenses, temos mulheres de diferentes classes sociais, temos mulheres do povo e temos mulheres que tiveram acesso a estudos e que pertenciam a uma elite que já lutava na oposição democrática contra o regime. Temos mulheres católicas progressistas, temos mulheres que estavam completamente longe da religião. Temos mulheres de várias sensibilidades políticas, temos mulheres comunistas, mulheres mais da extrema esquerda, mulheres socialistas, mulheres de uma área mais conservadora.”

Outra preocupação que definiu a produção do filme foi colocar no centro do projeto as mulheres. As protagonistas foram acompanhadas por uma equipa de mulheres que deu prioridade à escuta e à empatia. “Eu não faço filmes sobre, eu faço filmes com. Portanto, o filme é feito com estas mulheres e com esta equipa muito generosa, talentosa e dedicada,” salienta a realizadora.

Esta preocupação exigia atenção redobrada. Houve o cuidado de evitar que na deslocação à prisão de Caxias as mulheres que ali foram presas e torturadas não passassem por uma experiência traumatizante, que se sentissem acolhidas e dignificadas. E em Cabo Verde a produtora cabo-verdiana Samira Vera Cruz conduziu as perguntas em crioulo. “Eram perguntas demasiado delicadas para eu fazer na língua do opressor. Portanto tive esse cuidado, eu tentei que fosse uma mulher cabo-verdiana a estabelecer essa conversa, esse diálogo. Esse, para mim, foi o maior desafio.”

O documentário vai ser apresentado nas escolas. Raquel Freire ressalva que o cinema tem um papel fundamental a desempenhar, face às vagas populistas e nacionalistas que querem reescrever a História, “para nós sabermos quem somos e de onde viemos, para conhecermos a nossa história. Neste momento, os jovens têm muito pouco acesso ao que foi a nossa história e à verdade, ou seja, à história contada pelas pessoas que a fizeram, que a construíram.”

A banda sonora do filme reúne figuras marcantes da musica de intervenção, mas a cereja no topo são duas cantoras que hoje incarnam no cenário musical português a consciência política e a continuidade com a história da resistência ao fascismo e ao colonialismo, A Garota Não e a rapper Mynda Guevara. “A Mynda Guevara, que é uma rapper da Cova da Moura, que é uma das protagonistas do meu último filme Mulheres do Meu País, e ela tinha que estar, ela é uma mulher profundamente revolucionária, absolutamente incrível, e gostava também de ter uma voz que fosse a voz do nosso Zeca Afonso hoje, e essa voz é, sem dúvida alguma, A Garota Não,” remata Raquel Freire.

Luís Guita