Nteregu, homenagem cinematográfica à história músical da Guiné-Bissau

por Luis Guita

Descobrir o universo musical da Guiné-Bissau é como entrar na gruta onde Ali Baba e os quarenta ladrões guardaram os tesouros roubados. Só que aqui, nada desta música foi roubada, será antes o resultado de um imenso filão de ouro que, tal como um rio, é alimentado por múltiplos afluentes. 

Neste país da costa ocidental de África, 2,2 milhões de habitantes falam 32 línguas que correspondem aos diferentes grupos étnicos que vivem no território. Com toda a riqueza artística e cultural que um caldeirão de misturas desta dimensão pode proporcionar, não é difícil imaginar que se esteja perante um dos mais prolíficos espaços musicais.

Premiado como Melhor Documentário no MATE Festival 2025 e no FESTin 2025, Nteregu é um testemunho único deste universo musical rico do contributo de dezenas de etnias. 

Tal uma nau Rainha da Música Guineense, este trabalho notável dos realizadores portugueses Roger Mor e Manuel Loureiro transporta-nos numa apaixonante e intensa viagem através séculos de história da música da Guiné-Bissau, desde suas raízes ancestrais até suas expressões modernas, traçando uma carta de marear que liga, entre outras, Bissau a Nova Iorque ou Lisboa a São Paulo. 

Nteregu é um percurso apaixonado que nos levado da tina (instrumento musical tradicional da Guiné-Bissau, também conhecido como tambor de água)  à cultura das mandjuandadi (associações femininas tradicionais na Guiné-Bissau, caracterizadas por grupos de mulheres de mesma idade que se reúnem para cantar, dançar e fortalecer laços de solidariedade). Ou ainda das tabankas (aldeias de casas rústicas) e dos griots (contadores de histórias, poetas e conselheiros tradicionais que atuam como guardiões da história e cultura, transmissores orais de conhecimento),  às pistas de dança na Europa.

Realizado por Manuel Loureiro e Roger  Mor,  e  produzido pela Associação Ser Mudança, Nteregu é a celebração poética da música guineense em toda a sua diversidade e riqueza e para a qual contribuem os depoimentos de, entre outros, Ramiro Naka, Adriano Atchuchi, Eneida Marta, Miguel Barros, Tony Osvaldo, Ivan Barbosa, Karyna Gomes, As One, Juca Delgado, Odete Semedo, Dj Mandas, Nino Galissa, Dulce Neves ou Ernesto Dabó.

Associação Ser Mudança : https://sermudanca.pt/pt/

Nterego – Grupo Mandjuandadi NivaKina PHOTO © Associação Ser Mudança
Nterego – Escola de Kora de Nino Galissa, Bissau PHOTO © Associação Ser Mudança
Nterego – Aldeia de Tabatô_Guiné-Bissau PHOTO © Associação Ser Mudança
Nterego – Aldeia de Tabatô_Guiné-Bissau PHOTO © Associação Ser Mudança

Nteregu – Luis Guita entrevista os realizadores Roger Mor e Manuel Loureiro

Como nasceu o documentário Nteregu?

Roger Mor, co-realizador do filme Nteregu: O Nteregu veio na sequência do nosso primeiro projeto, que era o Ntrudo. Nós tivemos este primeiro contacto com este rico universo da música tradicional guineense através deste primeiro filme, que foi o Ntrudo, e a partir daí nós ficámos com vontade de explorar um pouco mais. A ideia, propriamente, surge da nossa intenção de ajudar a fazer um inventário da cultura guineense, que era um dos projetos de uma figura marcante do panorama cultural na Guiné-Bissau, que é o Dr. Cornélio. A vontade dele era começar a fazer esta inventariação, sobretudo dos ritmos tradicionais. E, efetivamente, a missão do filme é dar a conhecer a riqueza cultural da música da Guiné-Bissau. 

E vão às origens da música.

Roger Mor: Costuma-se dizer que os artistas e os loucos navegam nas mesmas águas, mas os artistas saem. E nós quase não saímos pela loucura que foi de querer criar uma peça que atravessasse tantos séculos. Esse foi o maior desafio, a meu ver.
Eu acho que se deu muito, mas também se deu aqui uma grande dor de cabeça, que foi querer contar uma história de tantos séculos, com tanta riqueza, com tantos ritmos. É muita história num filme só. Com esta loucura de querer contar a história de onde vem e para onde vai a música da Guiné-Bissau.

E quais foram os desafios de colocar toda esta história em imagens? 

Manuel Loureiro, co-realizador do filme Nteregu: Para já, eu acho que concordo com o Roger. Realmente, tínhamos muita coisa para contar num filme só. Porque como não havia nada, era preciso contar tudo. Pelo menos, assim, já está contado.
Às vezes com mais espaço para a poesia, mais espaço para uma linguagem mais cinematográfica, outras vezes uma linguagem mais condensada e mais informativa, mas está lá. E esse acho que era o primeiro passo. O que eu senti como desafio foi, em fases da história, em termos de imagens, arranjar imagens para ilustrar aquilo que estávamos a falar.

Nós temos as histórias contadas na primeira pessoa pelos entrevistados, mas há muito poucas imagens de arquivo. Depois há outras fontes de arquivo que eram inacessíveis ao orçamento e aos meios que nós tínhamos. Acho que foi isso um bocadinho mais.


A maior dificuldade, se calhar, que nós sentimos a fazer este filme foi estarmos a fazer um filme com muito pouco dinheiro. Nós quisemos fazer o filme, fomos fazer o filme, tivemos alguns apoios logísticos. No entanto, para este filme sair, tínhamos que ter realmente um apoio monetário, porque nós temos que pagar os direitos aos artistas que entram, das músicas, etc.
Uma das minhas maiores dificuldades, pelo menos falando por mim, é estar a editar, a trabalhar, a dar o litro, sem saber se o filme ia sair. Porque se nós não tivéssemos o dinheiro para pagar realmente os direitos de autor e respeitar esse trabalho artístico de todos, o filme não sairia. Mas tudo acabou bem.

Neste filme, o que é que é identificado como as raízes mais profundas da música da Guiné-Bissau? 

Roger Mor: Nós decidimos arrancar com as duas principais linhagens que estão identificadas, que é a do Balafon e a da Kora. Por isso é que o filme começa na aldeia de Tabatô, onde esta linhagem ainda se mantém viva em toda a aldeia de músicos. E, obviamente, não podíamos deixar de passar pelas raízes das Mandjuandadi com a questão da Tina.
Porque, se hoje em dia há um elemento que é transversal à música moderna, talvez seja mesmo a questão da Tina. E, efetivamente, há aqui uma ligação histórica a Portugal com a Tina, porque a tina é o balde da água que é tocado com meia cabaça dentro, com a tina cheia de água. Se calhar, se não chegassem lá as pipas de vinho, se calhar, o instrumento seria outro.
Eu diria que são estas três as grandes raízes que nos conduzem depois ao longo do filme.

Há uma parte do filme sobre o contributo da música durante o processo de libertação, de combate às tropas coloniais portuguesas. É feita uma grande referência a José Carlos Schwarz (poeta e um dos mais importantes músicos da Guiné-Bissau, participou na luta clandestina pela independência).

Roger Mor: Eu queria só fazer aqui um pequeno apontamento antes de responder à tua questão. Quando há pouco perguntavas como é que surge o filme, na realidade, a primeira vez que eu desejei ver o filme foi quando estava a fazer pesquisa nos arquivos, lá na Guiné-Bissau, e encontro aquela frase de um inquérito etnográfico de 1945 a dizer que a música guineense é muito pobre em ritmos, rica em barulhos, sons infernais e apitos metálicos. Esta frase, que é uma das, se calhar, menos chocantes que eu li nestes questionários que Portugal escrevia sobre as antigas colónias, acho que foi aí que senti a primeira vez vontade de fazer um guião sobre a música da Guiné.
E, obviamente, que, depois, quando olhamos para a nossa cultura, para o papel que a música portuguesa teve na questão de acabar com o regime, isto também se colocou, obviamente, na Guiné. E o mais engraçado foi ver como as letras que estão associadas à resistência são, todas elas, de facto, verdadeiras histórias orais. O verdadeiro papel da música na Guiné-Bissau é um arquivo oral, que é importante que não se perca. E nas letras da resistência acontece isso. Por isso é que nós fizemos questão de ter traduzidas as letras. Não só as que estão em crioulo, mas como das outras várias línguas. Porque, aí sim, percebemos qual é que é o verdadeiro papel da música numa sociedade sem escrita. 

O filme termina abordando o rap e hip-hop feito por guineenses. Há diferenças claras em relação ao rap hip-hop feito noutras latitudes?

Roger Mor: Olha, foi uma parte que acabámos por não explorar muito. Para isso ser possível, tu quase tinhas de mostrar o que é que é o rap de outras latitudes, para mostrar qual é que é a diferença rítmica daquele rap. Mas há uma diferença rítmica. Aquele ritmo composto da Tina está presente no rap e é possível identificar.
Agora, era preciso explorar isso mais, mas pronto, a diferença rítmica é uma delas. E depois tem a ver com a questão da história, não é? Obviamente, conta a história da Guiné-Bissau. E depois é a questão das línguas, não é? Calcula-se que ainda existam 32 línguas no país e há muitos músicos que ainda fazem questão de agarrar e pôr no rap uma parte daquilo que é a língua materna. E são as diferenças. 

Este filme começou por ser apresentado na Guiné-Bissau. Qual foi a reação dos guineenses?

Roger Mor: Sim, o Manuel foi para Nova Iorque, eu fui para a Guiné-Bissau.
Foram realidades completamente diferentes, seguramente. A antestreia foi no pátio da Embaixada de Portugal. De todos os eventos a que eu fui, acho que foi um dos mais concorridos da primeira Bienal de Arte Contemporânea da Guiné-Bissau. Mostrar um filme sobre música da Guiné, na Guiné-Bissau, foi uma surpresa. As palmas, as pessoas dançavam, as pessoas reconheciam as letras. Foi incrível! E as reações?! Foi um momento emocionante! As pessoas têm um novo olhar sobre si próprias. Há quase que, ao longo do filme, injeções de autoestima naquele público. 

Manuel Loureiro, como foi apresentar o filme sobre a música da Guiné-Bissau em Nova Iorque? 

Manuel Loureiro: No Africa Film Festival, também foi muito bem recebido mas por razões completamente diferentes. Enquanto na Guiné-Bissau tínhamos toda uma plateia a rever-se, em Nova Iorque o que eu senti foi que a plateia era composta maioritariamente por profissionais. Profissionais de rádio que tinham, por exemplo, muitos programas de rádio de World Music. No fim vieram dizer, muitos deles, que tinham estado em dezenas de países africanos e que não conheciam nada sobre a Guiné-Bissau. O que é muito estranho. É quase absurdo, os interessados em música não conhecerem a Guiné-Bissau. Porque é fortíssimo, é poderosíssimo. E sentem essa vontade, muitos deles disseram que têm que ir à Guiné-Bissau.


Saí de lá com uma lista de e-mails, inclusive para responder, e respondi com os nomes dos artistas e com dicas. Porque todos eles ficaram muito entusiasmados com a ideia de visitar o país. Eu acho que isso é muito bonito, e acho que o filme funciona.

E depois de Nova Iorque e Guiné-Bissau? 

Roger Mor: O Nteregu, depois, acabou por estrear no (Festival de Cinema) Festin, e ganhou o Prémio do Público, o que nos deixou muito contentes, como é óbvio.
Depois passou em São Paulo, no In-Edit. Já temos algumas reações, nomeadamente algumas universidades estão interessadas em criar uma parceria connosco para mostrar. Vamos estar na Austrália. Ou seja, o filme está, surpreendentemente, a entrar em circuitos onde nós até nem tínhamos pensado que ele poderia entrar tão facilmente.

E nós estamos a falar do New York African Film Festival, que é um dos principais festivais de filmes de música africana do mundo. Ou seja, para nós também é um sinal que, de facto, conseguimos atrair a atenção de grandes faróis que têm a luz ligada sobre a música mundial. Este filme agora vai correr os festivais de cinema, depois, possivelmente, vai passar para as televisões nacionais, quer em Portugal, quer na Guiné-Bissau. Depois, a longo prazo, ficará disponível no nosso site, o sermudança.pt. Eu acho que este pode ser um início muito interessante para dar continuidade a este projeto. Nós gostávamos de fazer mais documentários sobre música na Guiné-Bissau.

Basta pensar que, se ainda existem 20 etnias que sejam, cada etnia tem o seu ritmo, tem os seus músicos, tem os seus instrumentos, a sua língua. Ou seja, basta pensar nisso e pensamos logo numa série documental. 

O apelo que eu gostava de lançar aqui às pessoas é que, quando tiverem a oportunidade de ver o filme, que invistam estes 90 minutos. Há todo um mundo novo, que as escolas não nos deram a conhecer, que os meios de comunicação continuam a não nos dar a conhecer. Há um eurocentrismo na nossa cultura, que muitas das vezes nos afasta de uma riqueza da cultura, que não está na nossa latitude, simplesmente. E essa riqueza, muitas das vezes, ajuda-nos a criar algo novo.

Eu sou uma pessoa completamente diferente depois de ter lidado com a cultura guineense. Há ali uma riqueza que me torna a mim mais rico.

Luis Guita