A vida é a propósito de esperança, mas principalmente de tenacidade e perseverança. O cineasta palestiniano Rashid Masharawi é feito desta matéria, o tipo de pessoa que se recusa a desistir. A invasão israelita e o genocídio em Gaza impeliram-no a embarcar, com sentido de urgência, num projecto de apoio à produção de documentários filmados por habitantes de Gaza. “Estou a lutar para salvar a memória. Quando as pessoas morrem, as suas histórias também morrem, e não quero que as pessoas morram duas vezes”, disse ao Blindspot, em Genebra.
Após o início da guerra, Rashid fundou o Masharawi Films Fund com o objetivo de incentivar os jovens cineastas palestinianos a contar, através do cinema, as histórias humanas cruas que mostram ao mundo como é a vida em Gaza.
“Não foi fácil. Quando comecei, duvidei seriamente que o conseguisse”, recordou. “Começámos no meio de um verdadeiro genocídio, sob bombardeamentos reais, quando as pessoas se deslocavam, perdiam as suas casas e procuravam comida, e o filme não era propriamente uma prioridade naquele momento, mas eu e a minha equipa insistimos, enquanto as pessoas lutavam para salvar as suas próprias vidas. Com os cineastas em Gaza, eu queria salvar as histórias de vida das pessoas.”
Os obstáculos eram inúmeros, afetando cada detalhe das filmagens e da produção. “Sem eletricidade, sem possibilidade de carregar as baterias das câmaras e dos telemóveis, sem internet para comunicar”, explicou Rashid, confessando que um sentimento de culpa estava sempre presente. “Eu estava fora de Gaza e, naquela altura, estávamos constantemente a arriscar a vida das pessoas para procurar internet aqui e ali, normalmente perto de hospitais, onde trabalhavam os jornalistas com cartões SIM internacionais. Era muito perigoso. A outra opção era ir até à fronteira com o Egito para usar cartões SIM egípcios, que funcionam em Gaza, por isso algumas pessoas arriscavam a vida para ir lá e enviar-me o material de filmagem.”
Rashid Masharawi apoiou a produção e a pós-produção das 22 curtas-metragens que compõem “From Ground Zero”, filmadas em diferentes partes da Faixa de Gaza no final de 2023.
Esta compilação estava programada para estrear mundialmente no 77º Festival de Cannes, mas foi retirada pelos organizadores devido a tensões “políticas”. Em resposta, o cineasta palestiniano organizou uma exibição de protesto através de uma projeção no exterior do local oficial do festival.
“Há duas histórias sobre os palestinianos”, disse Masharawi. “Há a história contada pela ocupação israelita, de que somos todos criminosos, que cortamos mãos, violamos mulheres, e há outra que ninguém quer ver, de que só no primeiro ano do genocídio Israel matou 20 mil crianças, mulheres e idosos. Há tantos palestinianos inocentes, que não têm nada a ver com o Hamas, nada a ver com o 7 de Outubro.” Os estereótipos anti-palestinianos propagados por Israel tornaram muito difícil encontrar espaço para as histórias que o projecto “From Ground Zero” queria contar. “Foi muito difícil, especialmente na Europa, incluindo França, em 2024, fazê-los ouvir, fazê-los olhar.”
Isto apesar de ter uma boa relação com o Festival de Cannes. “Eu próprio tive dois filmes em Cannes, ganhei um prémio em Cannes, participei em atividades em Cannes, tive bons filmes, tive cineastas, mas seis meses depois de 7 de outubro de 2023, não queriam lidar connosco, não queriam questionar os seus preconceitos”, disse Masharawi.
Desde sempre independente e sem ligações a Israel, à Autoridade Palestiniana ou ao Hamas, deparou-se constantemente com suspeitas por ser palestiniano. “Como cineasta, passei tantos anos, através de tantos filmes que fiz como realizador, a tentar explicar ao mundo a nossa humanidade. E depois cheguei ao ponto em que o mundo não me conseguiu explicar a sua humanidade.” A partir desse momento, Masharawi decidiu deixar de explicar que os palestinianos também são seres humanos. “Antes de tudo o cinema, somos seres humanos. Somos artistas, cineastas, músicos, bailarinos, fazemos teatro, somos escritores e somos como qualquer criança no mundo, ou qualquer pessoa que tem sonhos, que procura o amanhã, sem se envolver nesta história política suja. Só queremos viver a vida.”
Compreendeu que tinha chegado a hora de os palestinianos construírem o seu presente juntos, sem esperar por validação. “Consolidámo-nos. Eu disse: eles abandonaram-nos, e devemos manter-nos unidos e contar as nossas histórias. E foi isso que fiz com o projeto From Ground Zero. Estou a construir uma escola de cinema em Gaza, que organizo hoje e todos os dias, e todos os dias, um grande festival de cinema para crianças em Gaza. Centenas de crianças assistem a Charlie Chaplin, desenhos animados, animações e filmes belíssimos. Então eu disse: vamos concentrar-nos em nós próprios e continuar a contar as nossas histórias, vamos fazer cinema a sério, cinema de qualidade.”
A série de curtas-metragens documentais From Ground Zero continua com uma nova antologia de sete curtas e três longas-metragens, From Ground Zero+. Uma seleção de três curtas-metragens foi apresentada por Masharawi no Festival Internacional de Cinema e Fórum sobre Direitos Humanos de Genebra: Very Small Dreams, de Etimad Washah; Hassan, de Muhammad Al-Sharif; e The Wish, de Aws Al Banna.
Em “Very Small Dreams”, Etimad Washah traz-nos uma perspetiva feminina sobre as dificuldades e o sofrimento vividos pelas mulheres em plena guerra, quando elas e os seus filhos se tornam refugiados. As mulheres falam diretamente para a câmara sobre um quotidiano exaustivo e humilhante, enfrentando erupções cutâneas e doenças dolorosas causadas pela falta de higiene nas tendas onde vivem, além da total ausência de privacidade em espaços sobrelotados.
Um documentário que, numa linguagem crua e direta, revela, com uma franqueza que o torna ainda mais impactante, o imenso impacto psicológico que estas mulheres enfrentam diariamente, esmagadas pela ausência de qualquer sinal de esperança para o fim do seu desespero.
Uma jovem diz ser extremamente deprimente ter de partilhar uma tenda com uma dezena de outras pessoas, onde dormem sem qualquer possibilidade de privacidade. Outra mulher, sofrendo de múltiplas doenças, confessa que deseja morrer. E uma terceira jovem, que deu à luz o seu quarto filho no campo, conta a um médico que ela e o seu bebé sofrem de infeções bacterianas porque, devido à falta de pensos higiénicos e fraldas, é obrigada a usar tiras de toalhas e roupa que lava repetidamente apenas com água, pois não tem sabão nem detergente.
“Hassan”, de Muhammad Al-Sharif, acompanha Hassan, um rapaz de 17 anos, durante quinze meses de deslocação forçada no sul de Gaza, depois de este ter arriscado a vida para conseguir um saco de farinha para a sua família faminta no norte. Hassan, que perdera um irmão mais novo antes da deslocação e o pai durante o exílio forçado, muda-se de um abrigo para outro, em busca de alimento e de um lugar para dormir, movido pela esperança de reencontrar a mãe e a irmã.
No seu filme “O Desejo”, o encenador Aws Al Banna, de 26 anos, tenta usar a arte para ajudar outras pessoas no meio da guerra em curso, depois de ter perdido tudo, levando a dor e as feridas das mesmas para o palco para serem confrontadas e curadas através da performance. Ao reunir um grupo de adolescentes para ensaios de uma peça de teatro, cria um espaço onde elas podem dizer e chorar os seus traumas, sonhar e reconectar-se com a sua humanidade.

Rashid Masharawi nasceu e cresceu em Gaza. Trabalhou como realizador de cinema durante a primeira Intifada, em 1987, e realizou filmes no Iraque durante a guerra, no Líbano e na Síria. Utilizou a sua experiência e contactos fora da Palestina para exibir filmes em Cannes, Berlim e Veneza, construindo ao longo de 40 anos uma rede que serve agora o projeto “From Ground Zero”. Um projeto ambicioso apoiado por uma grande equipa em França, que trabalha na pós-produção, edição, correção de cor, design de som, mistura de som, legendagem, música e design gráfico. “Estamos presentes em muitos festivais de cinema importantes, a ganhar prémios, mais de 300 festivais internacionais de cinema em ano e meio, mas isso não é o mais importante, não o fazemos para participar em festivais de cinema ou para promover o filme”, disse, sublinhando que o principal objetivo é partilhar estas histórias não contadas com o mundo, para “preservar a memória”.
A casa de Masharawi em Gaza foi bombardeada pelo exército israelita. Perdeu uma imensa coleção de equipamento e máquinas de filmar, projetores de vídeo, um impressionante arquivo de filmes, rolos e fitas. Mas nada o detém. “Ninguém está a salvo em Gaza. Perdi 76 familiares. Não há ninguém que não tenha perdido a sua casa ou familiares. É um verdadeiro genocídio. Mas não nos vão parar. A minha casa foi bombardeada e estou a reconstruí-la para acolher uma escola de cinema. Estou a desenvolver a indústria cinematográfica em Gaza, a formar novos cineastas, e estamos sempre a trazer novos e bons filmes, porque somos cineastas antes de sermos palestinianos. Enquanto pensarmos em cinema, faremos bons filmes, mesmo com a falta de equipamento, dinheiro ou técnicos.”
Para Rashid Masharawi, o otimismo é uma escolha. Quando questionado sobre o futuro da Palestina e dos palestinianos, não hesita um instante. “Temos um amanhã. O amanhã é nosso. A ocupação israelita pode destruir a nossa terra, as nossas casas, os nossos edifícios, e já o fez; pode matar muitos de nós, o que já fez. Mas não acredito que eles ganhem esta guerra”, enfatizou. “Porque não se pode lutar contra a cultura, não se pode lutar contra a história, não se pode lutar contra uma identidade. Não podem tirar sete milhões de palestinianos da Palestina. Não é possível. Não podem prendê-los a todos. Não podem matá-los a todos. Nós estamos lá e estaremos lá”.
Nelson Pereira




