Hamad Gamal: A guerra foi iniciada para esmagar a revolução sudanesa

por Nelson Pereira
Hamad Gamal © Nelson Pereira

Enquanto a ONU alerta para a ameaça iminente de outro massacre em grande escala no Sudão, os ativistas do movimento democrático sudanês no exílio denunciam uma guerra lançada para pôr fim à revolução popular iniciada em Dezembro de 2018. Defendem que a guerra é apoiada por potências estrangeiras ávidas de controlar os recursos do país e sem qualquer interesse em viabilizar uma transição democrática no Sudão.

“A guerra foi o último recurso escolhido para esmagar a revolução, após várias tentativas falhadas de manipular o movimento revolucionário”, afirma Hamad Gamal, ativista sudanês exilado em França.

Os protestos populares conseguiram derrubar o ditador Omar al-Bashir em abril de 2019. O exército, contudo, manteve-se no poder, formando inicialmente alianças com partidos civis, mas, por fim, retomando o controlo total através de um golpe militar a 25 de outubro de 2021.

“Ao optar por assinar um acordo com as forças militares contra-revolucionárias em vez de levar a revolução até ao fim, as Forças da Liberdade e da Mudança têm uma responsabilidade política direta”, sublinha Hamad. “O golpe militar e a guerra atual são o culminar desta trajetória falhada.”

Para o ativista sudanês, o acordo estabelecido entre os militares e as Forças da Liberdade e da Mudança não foi mais do que uma estratégia para sequestrar a revolução. “Foi nesse momento que assistimos à primeira tentativa de confiscar a mobilização revolucionária.”

No entanto, as forças democráticas compreenderam que se tratava de uma manobra contra a revolução e contra os revolucionários e não abandonaram a sua reivindicação de uma transição democrática. Foi organizado um protesto em frente ao quartel-general do exército em Cartum. Mas, a 3 de junho de 2019, soldados e milicianos dispersaram violentamente os manifestantes, matando mais de 130 pessoas.

“Naquele momento, a força revolucionária aceitou assinar um acordo com o exército. Mas, enquanto os ativistas viam este acordo como uma transição para uma fase de estabilidade, o exército via-o como uma nova oportunidade para sequestrar o movimento revolucionário”, explica Hamad.

Determinado a frustrar os objetivos da frente democrática e, assim, a minar a credibilidade de uma solução civil, o exército percebeu que, apesar dos obstáculos, os civis estavam a obter resultados mais ou menos significativos no terreno. Os militares decidiram então realizar um golpe de Estado a 25 de outubro de 2021, tomando o poder total. “Este golpe desencadeou uma segunda fase de mobilização. As pessoas voltaram às ruas em massa para protestar contra o golpe, mas também para continuar o trabalho revolucionário. Desta vez, porém, com muito mais radicalismo, com muito mais determinação”, sublinha o ativista sudanês.

“Após o fracasso de todas as tentativas de desencorajar a mobilização popular, desde instrumentalização à obstrução e até ao próprio golpe, os militares compreenderam que o povo permanecia determinado a resistir, apesar da repressão, e decidiram submeter a sociedade civil sudanesa ao horror, à experiência extrema da guerra”, detalha Hamad Gamal. “Pôr um país a ferro e fogo é a forma mais eficaz de travar uma mobilização revolucionária.”

A 15 de abril de 2023, eclodiu a guerra entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido (FAR), uma das milícias criadas na década de 2000 por Omar al-Bashir para reprimir as rebeliões locais, apesar de ser esperada a assinatura de um acordo para a integração deste grupo paramilitar no exército. A guerra destruiu as esperanças de uma revolução civil e democrática e forçou muitos ativistas envolvidos na revolução ao exílio.

Para Hamad Gamal, esta é sobretudo uma guerra contra-revolucionária, travada por duas estruturas armadas criadas pelo ditador al-Bashir: o exército e os paramilitares das FAR. Trata-se de uma guerra por procuração, dado que ambos os lados do conflito são apoiados por potências estrangeiras ávidas de controlar os recursos naturais e a posição estratégica do país.

Enquanto o exército sudanês recebe assistência militar e diplomática da Turquia, os Emirados Árabes Unidos (EAU) são acusados ​​de prestar apoio militar a milícias paramilitares, particularmente através de forças mercenárias. Este apoio está ligado ao interesse dos EAU em controlar o comércio de ouro sudanês, uma vez que o Dubai é um centro para o ouro extraído ilegalmente pelas FAR.

Desde o início do conflito, as Forças Armadas Sudanesas e as FAR têm cometido inúmeras violações dos direitos humanos, incluindo ataques deliberados contra civis. Segundo a ONU, a guerra matou dezenas de milhares de pessoas e desalojou mais de 12 milhões, incluindo quase um milhão no Chade. Mais de 30 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária, e a fome extrema afeta as regiões de Darfur e de Kordofan.

Enquanto a cidade de El-Obeid, capital do estado de Kordofan do Norte, está cercada pelos paramilitares das FAR há vários meses e a violência continua a aumentar, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, emitiu um “alerta vermelho” a 3 de julho, descrevendo a situação como “uma nova catástrofe dos direitos humanos” no Sudão.

El-Obeid, uma cidade com meio milhão de habitantes, acolhe aproximadamente 100 mil refugiados deslocados pela violência noutras zonas do país.

Mukesh Kapila, antigo Coordenador Humanitário da ONU para o Sudão, alertou que a situação dramática em El-Obeid poderia ter consequências ainda mais graves do que o que ocorreu em El-Fasher em 2024-2025.

El-Fasher foi cercada durante mais de um ano e meio pelas Forças de Apoio Rápido antes de cair sob o seu controlo. As organizações da sociedade civil alertavam há meses para a fome que assolava a cidade e para o perigo mortal enfrentado pelos seus habitantes, mas os seus apelos foram ignorados pelos meios de comunicação internacionais. Em dezembro de 2025, um denunciante revelou que os alertas sobre um possível “genocídio” em El-Fasher tinham sido removidos de uma avaliação de risco realizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico para proteger os Emirados Árabes Unidos.

A captura da cidade pelas milícias das FAR em outubro de 2025 foi acompanhada por massacres e assassinatos de habitantes, figurando entre as piores atrocidades cometidas desde o início da guerra. Estima-se que mais de 60.000 pessoas tenham sido mortas em apenas alguns dias.

“O povo sudanês lutou por valores universais e sofreu uma violenta repressão e uma guerra ignorada pela comunidade internacional devido a interesses comerciais que envolvem muitos países”, sublinha Hamad. “As sociedades cujos governos participam neste sistema neocolonial têm hoje um dever de solidariedade para com o Sudão”, conclui o ativista sudanês.

Nelson Pereira

Biografia - Hamad Gamal 

Ativista sudanês exilado em França, Hamad Gamal é cofundador da Sudfa Media, uma plataforma mediática franco-sudanesa criada no contexto da mobilização revolucionária no Sudão. Co-realizou, com Sarah Bachellerie, o documentário “Jusqu'au bout!”, que retrata os esforços dos exilados sudaneses para manter a revolução viva a partir do exílio.