A fotógrafa holandesa Annet de Graaf explica-nos como as suas imagens de atos de violência dos adeptos do clube sionista foram utilizadas para tentar mostrar o contrário do que aconteceu e o seu testemunho alterado. Agora tenta que a verdade seja reposta.
Duas semanas depois dos atos de violência à margem do jogo da equipa Israelita Maccabi Tel Aviv com o Ajax, em Amesterdão, no dia 7 de Novembro, há quem continue a bater-se para repor os factos, depois de uma cobertura mediática acusada de ter deturpado os acontecimentos para acertar passo com a narrativa israelita. A fotógrafa holandesa Annet de Graaf, cujas filmagens dos incidentes foram publicadas nas horas que se seguiram por vários media de primeiro plano, viu os seus videos serem usados para dizer o contrário do que mostravam. “Filmei atos de violência dos adeptos do Maccabi que se passaram diante dos meus olhos, mas os jornalistas, que não estiveram lá, não só insinuaram que eu estava enganada como alteraram o meu testemunho para fazer dos hooligans israelitas as vítimas,” diz-nos Annet.

Já obteve alguns pedidos de desculpa de meios de comunicação social holandeses e internacionais, mas afirma que não vai descansar enquanto não vir corrigidas notícias que distorceram as suas imagens e os media em questão não se retratarem diante do público.
A cobertura mediática dos incidentes de Amesterdão é uma ilustração perfeita da célebre frase de Steve Bannon, o estratega-chefe da Casa Branca nos primeiros meses da primeira administração de Donald Trump: “A forma de lidar com os media é inundar a zona com merda.”

Não foram os principais media holandeses que apontaram como principal motivação para atos de violência contra os hooligans israelitas um alegado ódio aos judeus por parte da população holandesa de origem árabe, muçulmana e imigrante. Este enquadramento veio de Israel e foi rapidamente adoptado pelos meios de comunicação social e políticos pró-Israel nos EUA, na Europa e nos Países Baixos. Os media de maior relevo não questionaram porém o enquadramento israelita nem o ecoar que dele foi feito pela classe política. Nalguns casos, respaldaram a vaga de desinformação, participando ativamente na estratégia que visava inundá-los.
“Nas minhas imagens vêm-se os adeptos do Maccabi a bater num jovem holandês, aos pontapés,” sublinha Annet de Graaf, acrescentando que tem contactado os media que escreveram que o vídeo mostra holandeses a atacar os fãs do clube israelita exigindo que escrevam a verdade. “O jornalismo tem o dever de apurar os factos, é inadmissível que jornalistas semeiem desinformação.”
Foi assim criado espaço na política e nas redes sociais para demonizar imigrantes de origem árabe e muçulmana e preparar medidas repressivas de longo alcance que a Câmara dos Representantes discutiu na quarta-feira, 13 de Novembro, como retirar em processo acelerado passaportes holandeses a esses grupos populacionais.
Annet diz que durante os confrontos, só lá estava ela e o jovem jornalista holandês Ome Bender. “Não havia lá outros jornalistas,” recorda. “Nem forças policiais, o que muito me surpreendeu. Havia um carro da polícia, que como se vê no vídeo de Bender não parou ao passar ao lado dos adeptos do Maccabi quando eles agrediam o jovem holandês caído no chão.”
A fotógrafa holandesa diz-se que ainda não recebeu esclarecimento cabal da agência Reuters para o facto de terem alterado o relato que lhes fez do que viu. Nem um pedido de desculpas do New York Times.
“Os media publicos holandeses falharam e com isto perderam a credibilidade, o que tem consequências muito negativas para a democracia,” alerta Marloes, editora numa publicação holandesa. E conta que no dia a seguir aos incidentes a televisão pública entrevistou várias pessoas na sede municipal onde ela se encontrava para corrigir acusações formuladas contra ativistas pró-Palestina, mas “não emitiu nenhum excerto das entrevistas que desmentiam a narrativa que tinha sido posta a circular.”
Uma narrativa que a presidente da câmara de Amsterdão, Femke Halsema, veio romper no domingo ao reconhecer que não devia ter usado o termo “pogrom” para descrever a violência ocorrida após o jogo. “Fomos completamente apanhados de surpresa por Israel”, disse Halsema à emissora holandesa NPO. “Às 3 da manhã, o primeiro-ministro Netanyahu já estava a dar uma palestra sobre o que aconteceu em Amesterdão, enquanto nós ainda estávamos a reunir os factos.”
Quem não gostou da confissão de engano de Haselma foi o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Saar, que a rotulou de “totalmente inaceitável”.

Na noite do jogo, os hooligans do Maccabi entoaram nas ruas de Amesterdão slogans em hebreu. Yuval Gal, fundador do movimento judaico anti-sionista Erev Rav, diz que teve vários pedidos de tradução.
O ativista judeu ressalva que “entre os adeptos do Maccabi estavam muitos soldados israelitas que têm cometido crimes de guerra em Gaza e no Líbano.” Em Amsterdão cantaram “Deixem o exército israelita ganhar e que se fodam os árabes!” e “Porque é que não há escolas em Gaza? Porque já não há crianças lá.”

A máquina da propaganda israelita agiu com grande rapidez para impor uma narrativa, sublinha Gal, acrescentando que antes do debate parlamentar sobre os incidentes em Amesterdão o governo israelita enviou aos políticos um documento de 27 páginas que acusava organizações holandesas de ligações à organização militante palestiniana Hamas.
Há antisemitismo na Holanda? “Vivemos numa sociedade onde há antisemitismo, em grande parte baseado em estereótipos que continuam a existir. ” admite. “Mas não conheço nenhum caso de violência fora do contexto da vinda do Maccabi.”
Nelson Pereira



