Dima Khatib: Os media alinharam com a propaganda de Israel

por Nelson Pereira
Dima Khatib © Nelson Pereira

A cobertura jornalística da campanha militar israelita em Gaza após 7 de outubro de 2023 continua a gerar fortes críticas. A jornalista sírio-palestiniana Dima Khatib não tem meias palavras: “Os media retransmitiram ativamente a propaganda israelita”.

“O silêncio já é cumplicidade. Mas foi pior. Foi um envolvimento ativo com a propaganda israelita”, disse a diretora de projetos digitais da Al Jazeera, cuja carreira jornalística abrange mais de três décadas.

“E foi um envolvimento ativo contra os próprios jornalistas”, acrescenta Dima. “Não uma, nem duas vezes, foi repetido. A justificação que Israel deu para os assassinatos de jornalistas — obviamente falsa e inaceitável, ou seja, que de todas as vezes eram terroristas, eram culpados, mereciam, etc. — foi celebrada, foi aplaudida.”

Dima, que já fez reportagens em mais de 30 países dos 5 continentes, entrevistando presidentes e pessoas de todas as classes sociais, aponta para um claro enviesamento dos media a favor da narrativa oficial de Israel. “Os media nem sequer fizeram o seu trabalho básico de verificação desta informação, simplesmente repercutindo mentiras contra os jornalistas de Gaza. E isto é uma prova de racismo contra os jornalistas que não têm a cor de pele considerada necessária para que os jornalistas, pelo menos nos grandes meios de comunicação, possam exercer a sua profissão. Não estamos a pedir mais; estamos a pedir que verifiquem as informações e as publiquem.”

Observando que, quando um jornalista é morto noutro lugar, isso causa grande comoção, ela denuncia a indiferença dos media em relação ao assassinato de jornalistas palestinianos. “É um escândalo indescritível. 262 jornalistas (*) foram mortos em Gaza — um recorde, um verdadeiro massacre. Basta olhar para os principais meios de comunicação social aqui na Europa, nos Estados Unidos e até no Sul Global, e ver quantas vezes essa informação foi retransmitida, publicada e noticiada de forma correta e ética.”

Jornalismo que deixou de ser jornalismo

Segundo Dima Khatib, a  “má” cobertura mediática dos assassinatos de jornalistas em Gaza demonstrou, sem sombra de dúvida, que os palestinianos não são considerados seres humanos iguais. Admite que esta experiência foi para ela uma enorme deceção e uma fonte de grande tristeza.

O mesmo padrão de desinformação tem sido aplicado à cobertura mediática do genocídio em geral, acrescenta. “Os meios de comunicação social continuam a repetir as mentiras de Israel como se nada tivesse acontecido, mesmo depois de terem sido desmentidas inúmeras vezes. Repetem como papagaios as mentiras proferidas pelas autoridades israelitas, usando-as como clichés nos seus artigos.”

Um método que transforma o jornalismo em propaganda, sublinha Dima. “Cada vez que usamos uma palavra específica, acrescentamos uma pequena frase para definir a nossa posição em relação a essa palavra, a essa pessoa, a essa organização, a esse lugar. É pouco ético, não é jornalismo. É propaganda.”

“Basta observar como os maiores veículos de comunicação social como o New York Times noticiam e abordam as notícias”, explica. “Escrevem que 400 palestinianos morreram, mas não dizem como ou quem os assassinou. Ficamos a pensar se morreram de insolação ou indigestão. Mas assim que um israelita morre, somos imediatamente informados de que foi morto por um palestiniano. Publicam uma fotografia dele a tocar guitarra. Mesmo sendo um soldado. Uma humanização a que nenhum palestiniano tem direito, nem mesmo uma criança. Esta linguagem tornou-se padronizada nas redações, e muitos jornalistas limitam-se a repeti-la, evitando desagradar aos seus editores.”

Confessando a sua desilusão pela atitude de muitos colegas de profissão, Dima acrescenta que há também aqueles que se opuseram e denunciaram políticas editoriais que levam à desumanização dos palestinianos. “É uma desumanização deliberada dos palestinianos, e é por isso que já não tenho respeito pelos media, já não tenho respeito por estes colegas jornalistas. Ao mesmo tempo, vi alguns corajosos que disseram que não. Há muitas redações que sofreram este tipo de pressão em relação à cobertura da Palestina, jornalistas que perderam os seus empregos, o seu sustento e das suas famílias, apenas por dizerem uma palavra. Tenho uma grande admiração pelos jornalistas que não cederam à propaganda e ao caminho mais fácil.”

Recusando trair o jornalismo, alguns jornalistas decidiram embarcar em projetos independentes e lançaram os seus próprios veículos de comunicação. Segundo Dima Khatib, este movimento de jornalismo independente tem tudo para substituir “aquilo que o jornalismo afirma ser, mas já não é, porque o jornalismo seletivo não é jornalismo a sério”. Ela acrescenta que, se não conseguirmos fazer isto pela Palestina, não o conseguiremos fazer contra o fascismo. “É uma luta universal de todos nós.”

Em relação aos meios de comunicação estatais, a cobertura da guerra de 2003 contra o Iraque revelou uma cumplicidade alarmante com a propaganda, observa Dima, que trabalhou em Doha para a Al Jazeera durante a invasão do Iraque. “As mentiras foram repetidas, repetidas e repetidas, sem qualquer verificação, desde armas de destruição maciça a uma associação do Iraque com o 11 de Setembro que não tinha qualquer fundamento na realidade. Isto é muito problemático porque se trata de um serviço público. O trabalho de um jornalista é sempre um serviço público, com um dever ético, essencial para a democracia, mas isto é ainda mais verdade quando é financiado com os nossos impostos.”

Descolonizar o jornalismo

Dima Khatib ingressou na Al Jazeera em 1997 como jovem jornalista no Qatar e, mais tarde, tornou-se a primeira mulher executiva do canal. Em seguida, estabeleceu escritórios da Al Jazeera na China e na Venezuela. Nomeada diretora da AJ+ em agosto de 2015, ocupou o cargo durante dez anos, supervisionando os canais de inglês, árabe, espanhol e francês da AJ+.

Tendo-se deparado com realidades tão diversas, afirma ter compreendido que, no seio das redações, um processo constante de descolonização é uma prioridade. “Falo muito sobre descolonizar o jornalismo, as redações e os próprios jornalistas. Mesmo os jornalistas do Sul Global, que foram colonizados, precisam de passar por este processo. Por exemplo, na mente de muitos jornalistas árabes, a América Latina foi descoberta pelos europeus. No entanto, é exatamente isto que os israelitas dizem sobre a Palestina, que supostamente era uma terra sem povo para um povo sem terra, como se estivesse vazia. Chegaram e não havia nativos.”

Na raiz destas narrativas assimiladas estão currículos escolares que omitem factos históricos. A tal ponto que os adultos que foram vítimas do colonialismo são incapazes de reconhecer o mal que sofreram quando se depararam com réplicas deste. “Quando se apaga a existência de uma civilização, de várias civilizações, antigas, grandiosas e importantes, e os massacres que ocorreram, para que essa descoberta — que é a colonização — pudesse acontecer, está-se a apagar a história, está-se a apagar povos inteiros. É a mesma coisa que está a ser feita connosco na Palestina, com esta mesma propaganda,” aponta Dima.

“Ao repetirmos narrativas coloniais, perpetuamos a desumanização do outro,” acrescenta. “Porque estas narrativas foram criadas com o objetivo de desumanizar.”

Para além dos esforços para descolonizar e reumanizar a história, é igualmente importante saber que linguagem utilizar, sublinha. E, acima de tudo, livrar-se dos rótulos. “Quem é terrorista? Quem não é? Quem é bom? Quem é mau? Isto já está predeterminado pelas agências internacionais, que já definiram quem é mau e quem é bom.”

Ela insiste que, perante esta imposição de uma única verdade, devemos, antes de mais, ouvir os nativos. “Se vamos cobrir a Bósnia e não temos um único bósnio na redação, bem, não vamos saber como contar a história da Bósnia. Portanto, a diversidade nas redações é muito importante. Na nossa redação da AJ+, tínhamos palestinianos — não quaisquer palestinianos, um homem ou mulher palestiniano de Jerusalém, alguém da Cisjordânia, alguém de Gaza, alguém dos campos de refugiados na Síria, Palestina, Jordânia, um palestiniano espanhol, um palestiniano americano, um palestiniano colombiano — porque sem essa diversidade, não vamos conseguir contar as histórias.”

Acrescenta que a tão apregoada objetividade dos media significa simplesmente ver as coisas da perspetiva de alguém sentado em Paris, Londres ou Washington. “É a isso que chamam objetividade. Trata-se de fazer com que tudo pareça igual e eliminar qualquer distinção entre uma história e outra. Todas são contadas sob o mesmo chapéu. A objetividade, na verdade, é o jornalismo que não perturba o status quo das normas estabelecidas. Sempre numa perspetiva ocidental. E o Ocidente tem todo o direito à sua perspetiva, mas não o de apagar outras perspetivas.”

Jornalistas de Gaza

Como Israel não permitiu a entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza durante o genocídio — e mesmo antes, devido ao bloqueio que durou 19 anos —, os jornalistas de Gaza assumiram a responsabilidade de contar a história de forma direta. “Não havia aquele jornalista que chega de paraquedas, como sempre acontece, com toda a equipa, acesso a casa de banho, cama confortável, comida, etc., e com a sua própria visão de como a história deve ser contada”, destaca Dima. “A tarefa foi deixada aos jornalistas palestinianos em Gaza. Embora lhes falte comida, camas quentes, abrigo e proteção — não têm nada —, são bombardeados como todos os outros, passam fome como todos os outros, sentem frio como todos os outros, não têm acesso a uma casa de banho como todos os outros. E vimos isso em direto nas redes sociais, o que reumanizou a história palestiniana.”

Jovens de todo o mundo que acompanharam as reportagens destes jovens jornalistas palestinianos nas redes sociais viram-nos em lágrimas, no seu sofrimento. E isso, sublinha Dima, contribuiu para o movimento de solidariedade para com os palestinianos em todo o mundo, mas sobretudo entre os jovens, a geração universitária, a geração Z, que liderou todo o movimento de solidariedade nas universidades americanas. “Eu estava nos Estados Unidos, por acaso, quando montaram o primeiro acampamento. Eu estava no Michigan, cheguei, e perguntaram-me: ‘Para que órgãos de comunicação trabalha? Porque aqui, o New York Times, a Reuters e todos esses, estão barrados. Não entram.’ Eu disse-lhes: ‘Sou da Al Jazeera’, e eles responderam: ‘Uau, claro, entre.’ Olhei em volta e vi que o canal inglês da Al Jazeera estava a ser transmitido em direto num iPad no acampamento. Isso tocou-me profundamente. Não eram palestinianos, eram pessoas de todos os Estados Unidos, imigrantes, brancos, negros e talvez um terço fossem judeus.”

Nelson Pereira

* Este número chegou a 272 no momento da publicação.