Uma nova plataforma informática angolana propõe-se colocar a IA e o rastreamento por satélite ao serviço da gestão de explorações agrícolas. O fundador e director da startup Kilunga, João N’vula, garante que os agricultores registam “um aumento de 40% a 60% das produções”.
As novas tecnologias querem entrar na agricultura com uma panóplia de ferramentas como IA, drones, sensores, robótica e análise de dados, apostadas em melhorar a eficiência e incrementar a produção.
As novas tecnologias não trazem porém unicamente progresso e vantagens. Com elas surgem também novos e graves problemas, que vão exigir respostas urgentes. Um exemplo flagrante é a IA. Embora contribua para os esforços de conservação da água através da agricultura de precisão, a infraestrutura de IA representa uma ameaça crescente à segurança hídrica local e acarreta impactos ambientais significativos, uma vez que os sistemas de IA requerem quantidades imensas de água para arrefecer os centros de dados e gerar eletricidade.
A agritecnologia é a utilização da tecnologia — incluindo software, hardware, IA e biotecnologia — para melhorar a eficiência, a produtividade e a sustentabilidade da agricultura, horticultura e aquicultura. Otimiza a produção agrícola através de ferramentas como drones, sensores, robótica e análise de dados para enfrentar os desafios da produção do século XXI.
A agritecnológica Kilunga utiliza imagens de satélite e modelos de IA para monitorizar a saúde das culturas em tempo real e combina isso com ferramentas integradas de gestão agrícola, financeira e operacional que permitem a tomada de decisões agrícolas sustentáveis e baseadas na análise de dados.
Desta forma, a empresa de tecnologia agrícola ajuda os agricultores a tomarem decisões e a melhorarem a produtividade de forma sustentável, disse João N’vula. “Usamos satélites europeus para ajudar fazendeiros em Angola e agora estamos a expandir para a África, no geral, com a nossa parceria que temos com o Corredor do Lubito. O Corredor do Lobito é um dos corredores logísticos mais importantes de África neste momento. Está a expandir essa importância a nível mundial, inclusive a China, os Estados Unidos e os Emirados também estão com investimento pesado no Corredor do Lobito. E nós estamos lá para digitalizar as fazendas ao longo daquele corredor e expandir as nossas operações na região.
O director da Kilunga salienta que a agritecnologia permite ao agricultor ter o controle espacial da sua fazenda, ao mesmo tempo que vai precisar de investir menos tempo no planeamento e gestão da atividade, “porque terá tudo num único lugar, a gestão financeira, a gestão de equipa, a gestão de tarefas e o cálculo automático dos custos.” João N’vula acrescenta que novas ferramentas de análise e indicadores financeiros permitem seguir a saúde técnica e financeira de uma fazenda e tomar rapidamente decisões informadas pela visualização dos dados.
“Se vai fazer o plantio, ele vai precisar de dados climáticos. Esses dados climáticos vão-lhe dar quando é que vai chover e fazer o melhor planeamento. Para fazer o melhor planeamento, ele vai precisar cadastrar o talhão, na plataforma ele delimita o talhão,” disse N’vula, acrescentando que é como se o agricultor estivesse fisicamente a arar a terra, a fazer o tratamento e a plantar as sementes. “Faz o registo online, delimita a terra e dá o nome ao talhão, a geo-referência do talhão e as descrições do que vai ser feito aqui no talhão. Depois, vai para a parte do plantio, que está também na plataforma, e aí consegue escolher o talhão, escolher os insumos que vão estar no talhão, que vão estar naquele talhão, e também a data em que o talhão vai ser usado para o plantio. Aí, ele consegue automaticamente, com base nesses dados, saber quanto é que vai gastar, e por aí já sabe por quanto vai vender cada produto de maneira a ter o devido rendimento.”
O rastreamento por satélite de uma exploração agrícola permite igualmente um controle muito mais eficaz de doenças e pragas das culturas. “Quando uma planta está de boa saúde, ela reflete a luz do solo de uma certa maneira quando está saudável, então, o satélite, ao captar essas imagens, capta aquilo em quatro bandas do espectro eletromagnético, e infelizmente os nossos olhos não conseguem observar, mas o computador observa e o nosso algoritmo pega aquelas bandas e calcula. Assim consegue dar essas informações do índice de vegetação daquela zona e o índice de humidade daquela zona. Ele consegue saber, pelo índice de vegetação, consegue saber se a plantação está boa, onde está boa e onde está má e onde tem humidade ou não tem humidade, onde está completamente seco. Essas informações são cruciais para o monitoramento da fazenda e proporcionar uma atividade mais profissional e realmente mais comercial, porque vai poder ter a capacidade de produzir mais ainda e com mais qualidade.”
“Os nossos clientes relatam um aumento de 40%, 60% das suas plantações,” afirma João N’vula, acescentando que a startup começou a entrar também no negócio do armazenamento de produtos agrícolas. “Têm que vender a uma velocidade muito grande, porque senão os produtos acabam por estragar. E nós observamos, agora, um outro mercado aí e começámos a criar postos logísticos inteligentes para a stocagem de produtos agrícolas,” explica. “Os escoadores cobravam muito caro, de acordo com a necessidade do cliente. Mas, já com um posto logístico inteligente, o agricultor pode controlar tudo a partir da plataforma, ele tem a possibilidade e tem o tempo de esperar por propostas melhores, para negociar propostas melhores.”
N’vula sublinhou estar em processo o estabelecimento de uma parceria com Universidade Mandume ya Ndemufayo (UMN), uma universidade agrária, e também com centros de formação especializados em cursos agrários, de maneira a ajudar as pessoas a entender a importância desses dados, a importância de trabalhar com informação precisa. A literacia constitui um obstáculo, ressalva. “Tem zonas que nem telemóvel usam, quando usam a rede é escassa. Então, é um problema. Inclusive, eu já pude contribuir com o governo participando da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira. Falando em inclusão financeira, estamos a envolver o digital. Então, tínhamos que pensar também na distribuição das redes e muito mais, como é que a informação chegaria até lá. Com a minha experiência de campo, com o projeto, já pude contribuir naquela área. E o Governo também está a começar a olhar nesse ponto e tentamos tratar da digitalização, que vai facilitar também a nossa entrada no mercado.”
A startup cuida de uma área total de 7 mil hectares, desde Quimbele, Benguela, Cuanza Norte. E está a entrar no Lobito, com o objetivo de avançar para fazendas que estão ao longo do corredor Lobito.
Luís Guita
Link para Kilunga: https://kilunga.online/

