Amber Morning Star: Os Povos Indígenas já viram isto antes

por Nelson Pereira
Amber Morning Star Byars © Nelson Pereira

Após mais de dois anos de genocídio israelita apoiado pelos Estados Unidos em Gaza, para além dos bombardeamentos no Líbano e da guerra contra o Irão, poucos ainda nutrem ilusões sobre os objetivos dos EUA. Mas há quem acredite que tudo isto começou com Donald Trump. Pergunte-se aos Povos Nativos Americanos. Eles já viram isso antes.

“Quando ouço dizer que Trump é o pior presidente que os Estados Unidos já viram, ou o mundo já viu, tenho de me rir, porque o meu povo sobreviveu a Andrew Jackson (*)”, disse ao Blindspot Amber Morning Star Byars, produtora de Impacto Indígena e membro da Nação Choctaw de Oklahoma, a terceira maior tribo Indígena dos Estados Unidos.

“Os pais fundadores dos Estados Unidos, que nos ensinam na escola a reverenciar, a ter em alta consideração, foram-nos apresentados como heróis. Mas nós, os Povos Indígenas, sabemos o que eles realmente eram: proprietários de escravos, perpetradores de genocídio, assassinos, violadores e ladrões”, salientou.

Amber Morning Star é uma artista multidisciplinar premiada, advogada, produtora de Impacto e defensora dos direitos Indígenas. Em 2023, fundou a Good Trade Productions, uma produtora de media especializada em apoiar a arte de contar histórias Indígenas. Amber contribuiu para as campanhas de Impacto de filmes aclamados, incluindo o documentário Lakota Nation vs United States, vencedor de dois prémios Emmy, e o documentário Sugarcane, nomeado para os Óscares.

Após séculos de uma História contada por invasores e ocupantes, o acesso à informação veio alterar as perceções. “Vemos isto nos nossos telemóveis todos os dias ao acordar. Não o aprendemos de um livro volumoso numa sala de aula, que faria a História parecer muito distante. Estamos a ver a colonização e o genocídio atuais ao vivo e em carne e osso”, enfatizou.

No entanto, existe ainda um grande fosso entre os mitos incutidos ao longo de gerações e os factos históricos. A arte, a cultura e a narrativa têm o poder de preencher esta lacuna. “É por isso que contar histórias é tão importante”, salientou Amber. “No final de uma guerra, as pessoas podem não ter sobrevivido, mas a arte sim. É a História, é o filme, é a dança, a canção, os trajes tradicionais. É a cultura que vai sobreviver. E é isso que torna o cinema tão incrivelmente importante, porque nos faz lembrar.”

Nas comunidades Indígenas, a memória foi sempre transmitida de geração em geração. Segundo Amber, a narrativa é fundamental para a sobrevivência. Infelizmente, a História, a arte e os documentários ainda estão amplamente ausentes das escolas, apesar de desempenharem um papel essencial na educação das gerações mais jovens. “Devia ser ensinado na escola, mas infelizmente não querem que aprendamos História, especialmente nos Estados Unidos. É por isso que temos estes livros de História que nos contam narrativas falsas. Não temos a verdade, não temos a perspetiva completa. Temos o que eles querem que saibamos, a perspetiva do colonizador, porque é ele que escreve os manuais. E é exatamente por isso que é tão importante continuarmos a contar as nossas histórias, porque essa é a outra perspetiva, o outro lado da moeda.”

A defensora dos direitos Indígenas não tem dúvidas de que uma das maiores missões da nossa geração é lutar contra o apagamento da narrativa. “Precisamos de manter a nossa história viva num momento como este. Ao longo dos últimos séculos, tentaram apagar-nos como Povo. Tentaram apagar as nossas histórias para que as gerações futuras não soubessem o que aconteceu. E há uma vasta iniciativa hoje, em todo o mundo, para apagar histórias, apagar a verdade. Não podemos permitir isso.”

StopLine3 rally Minnesota State Capitol © Amber Morning Star Byars

Em fevereiro, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão no meio das negociações sobre um possível acordo nuclear. O recurso às negociações de paz e aos cessar-fogos como instrumentos de ardil não é uma novidade na história dos EUA. A colonização europeia e, posteriormente, o governo dos EUA, violaram rotineiramente centenas de tratados com nações Indígenas. Os tratados de paz foram sistematicamente utilizados como ferramentas de ardil para obter terras, recursos e controlo sobre as nações Tribais. Ao utilizarem violência militar durante as negociações e a quebra sistemática de tratados ratificados com as comunidades Indígenas, os colonizadores iniciaram a remoção forçada dos povos Indígenas das suas terras, o que permitiu a rápida expansão dos Estados Unidos.

Cada vez que estas estratégias ardilosas são replicadas, os povos Indígenas veem a história repetir-se. “Uma história que conhecemos bem”, observou Amber Morning Star. “Fizeram tudo para nos enganar, para nos fazer assinar aqueles tratados. Fizeram de tudo, desde deixar-nos passar fome até tomar as nossas terras e, por fim, levar as nossas crianças, roubando tudo o que podiam para nos enfraquecer, para tentar quebrar o nosso espírito. Tentaram durante séculos e ainda continuam a tentar”.

Uma das táticas perniciosas utilizadas pelo colonialismo foi incutir complexos de inferioridade nas populações Nativas. Os Nativos eram retratados como desprovidos de cultura, incapazes de se auto-governarem, mentirosos, violentos, violadores e ladrões. Tais calúnias racistas eram frequentemente interiorizadas e acreditadas pelos Nativos. O impacto destes estereótipos persiste até aos dias de hoje. “A assimilação é algo terrível. A assimilação é uma tática de guerra muito eficaz para tentar fazer um Povo acreditar no que se quer que ele acredite, agir da forma que se quer e apresentar-se da forma que se quer. Eles tiveram sucesso nisso até certo ponto. Estou aqui sentada a falar inglês consigo. O inglês não é a minha língua nativa. Mas eles fizeram com que a fale. Isto é assimilação”, apontou Amber.

“Esforçaram-se muito para nos apagar como Povo e tomar a nossa cultura. Não tiveram sucesso. Bem, em algumas áreas, sim”, assinalou. “Tomaram grande parte das nossas terras, a maior parte delas. Levaram as nossas crianças. Fizeram-lhes uma lavagem cerebral, convencendo-as de que eram selvagens, que a sua cultura era má. Que éramos índios sujos. Que não prestávamos, que não éramos inteligentes, que éramos indignos, que não merecíamos amor.”

No entanto, tudo isto contradiz precisamente os ensinamentos Indígenas. “Nós, Povos Nativos, sabemos que somos sagrados e que nascemos da criação. Temos este valor sagrado desde o momento do nascimento. Temos esta ligação umbilical com a terra. É isso que nos torna fortes. Eles esforçaram-se tanto para nos tirar tudo isto. Conseguiram-no em algumas frentes, mas não em todas. Eu ainda aqui estou. Nós ainda estamos aqui. Ainda estamos a lutar. Estamos a lutar pela nossa terra. Estamos a lutar pela nossa cultura. Estamos a lutar pelo nosso futuro.”

“Sobrevivemos até aqui. Vamos continuar a lutar durante o tempo que for necessário”, assegurou Amber Morning Star. “As Comunidades Nativas falam a língua. Tentamos resgatar a nossa língua.”

A luta é árdua, pois trava-se em múltiplas frentes. “Muitos de nós tivemos de desaprender o que os nossos pais foram obrigados a aprender. Tivemos de tentar reaprender o que lhes foi retirado, o conhecimento que lhes foi negado. É difícil. Não é fácil. A minha geração e a geração mais nova têm de transitar entre dois mundos, o mundo Indígena e o mundo não-Indígena. Vivemos em ambos. Não é fácil, mas fazemos o nosso melhor para lutar pelo nosso futuro”, admitiu Amber. “Porém, nunca verão os povos Indígenas parar de lutar, porque não é isso que somos”, rematou a ativista Choctaw.

Nelson Pereira

* Andrew Jackson foi o sétimo presidente dos Estados Unidos, de 1829 a 1837. A política de Jackson em relação aos Povos Nativos Americanos foi marcada pela remoção forçada, resultando na realocação de aproximadamente 50.000 Indígenas e na morte de milhares, nomeadamente no Trilho das Lágrimas. Jackson assinou a Lei de Remoção Indígena de 1830, que obrigou as cinco principais Tribos do sudeste dos Estados Unidos — os Cherokee, Choctaw, Chickasaw, Creek e Seminoles — a abandonar as suas terras em busca de território no atual estado de Oklahoma. Esta migração forçada e brutal resultou em mais de 4.000 mortes.