Leni Velasco: A raiva é uma forma de esperança

por Nelson Pereira

Os protestos anticorrupção nas Filipinas, em setembro passado, expuseram divisões no seio do movimento progressista. A ativista filipina Leni Velasco alerta que rejeitar as táticas mais militantes da geração mais jovem pode dividir a esquerda — e sublinha que a raiva que impulsiona a juventude também sinaliza esperança.

Protests 21.09.2025 © Manila Public Information Office

Há uma luta interna no movimento da sociedade civil, disse ao ao Blindspot a cofundadora da DAKILA, um coletivo de artistas e ativistas das Filipinas. “Como evitar suprimir as formas de expressão da geração mais nova? Se tentarmos negar-lhes autonomia e ditar como podem protestar, corremos o risco de alienar um grande grupo de jovens que já estão zangados e frustrados. Como se a raiva fosse má. A esperança não se resume apenas a arco-íris e borboletas. A raiva é uma forma de esperança.”

Na opinião da ativista filipina, existe toda uma fação dentro do movimento progressista que considera legítimo apenas o protesto pacífico. Existe muita pressão sobre a sociedade civil filipina para que não se afaste do modelo mítico da Revolução do Poder Popular de 1986, que depôs o ditador Ferdinand Marcos.

“Éramos conhecidos pela Revolução do Poder Popular pacífica, considerada o modelo típico de movimento de resistência nas Filipinas. E isso está a ser questionado agora”, explica Velasco. “Vemos entre a geração mais nova que não concordam com este tipo de revolução, com este tipo de manifestação pacífica. Aliás, temos visto isso nos últimos meses, nas questões anti-corrupção, muitos jovens da Geração Z e da Geração Y manifestaram-se e discordaram da forma como a sociedade civil lidou com os protestos. Sentia-se que estavam a ser moldados para expressar a sua raiva de uma forma específica que já não funciona para eles.”

A Igreja Católica desempenha um papel altamente influente na gestão deste modelo, observa a ativista. “Temos uma Igreja Católica muito conservadora, que não quer que as pessoas usem palavrões em comícios e protestos. Temos este modelo de como se comportar em comícios. E isso está a ser resistido pela geração mais nova”.

Além disto, há muito que existe uma atitude paternalista dos movimentos progressistas do Norte Global em relação ao movimento social filipino. “Depois de Duterte, estamos agora no regime de Marcos, e a narrativa é que se está melhor, entre aspas”, diz Leni Velasco. “Quando falo com os financiadores do Norte Global, por exemplo, perguntam: então a situação está melhor agora? Se analisarmos, continua a existir a mesma infraestrutura de autoritarismo que existia no regime de Duterte. Mas, como parece mais democrático, no sentido em que não é tão ostensivo como Duterte fazia, na perspetiva do Norte Global é melhor. Não é melhor, é apenas que o regime tem melhores formas de cooptar a narrativa.”

“A maioria dos movimentos sociais do Norte global pergunta-nos agora: como é que sobreviveram a Duterte? Porque aquele foi um regime sangrento. E penso que esse é um dos desafios do Norte global que nos diferencia, porque naquela altura não tínhamos escolha. Tínhamos de nos unir, os movimentos sociais, os media, a academia, todos os outros, as partes interessadas, porque estávamos a ser massacrados.”

Velasco sublinha que, quando um movimento social não tem o privilégio de contar com recursos, a única opção que resta é unir-se. Caso contrário, se estiverem divididos, não conseguirão sobreviver ao regime. “Se compararmos com os movimentos sociais nos EUA de hoje, que ainda são altamente individualistas em termos de grupos, o desafio que enfrentam é escolher entre unir-se ou serem derrotados pelo regime autoritário. Têm ainda o privilégio de recursos, de egos, de estratégias concorrentes, mas precisam de encontrar uma forma de se unirem.”

Após mais de 30 anos de experiência em liderança multifuncional na construção de movimentos sociais, Velasco alerta que “quando a esquerda começa a agir como a direita, quando o movimento progressista cai na armadilha do pensamento binário, da alteridade, da polarização, temos um problema maior”. E alerta que, quando os movimentos progressistas o fazem, facilitam o trabalho de divisão promovido pelos regimes autoritários. “É como se estivéssemos a discriminar pessoas que não se parecem connosco, que não têm as mesmas crenças. Mas isso vai contra a própria essência e o cerne da democracia, certo? E é também uma ferramenta do governo autoritário para nos dividir ainda mais.”

A ativista filipina acredita que não se trata de concordar em termos de ideologias individuais, mas sim de procurar a união. “No entanto, nos EUA, em vez de um manifesto de unidade, apresentam um manifesto de propósito. Neste momento, é preciso unirmo-nos. É uma estratégia. Caso contrário, seremos destruídos”.

Nelson Pereira