Francesca Albanese: Crimes de guerra e genocídio de Israel foram facilitados pelas democracias e pelos media ocidentais

por Nelson Pereira
Francesca Albanese © Nelson Pereira

Israel sempre matou e torturou palestinianos, mas quando as nossas democracias reprimem a liberdade de expressão, revelam que fazem parte do “mesmo sistema”, disse Francesca Albanese ao Blindspot, em Genebra.

A 23 de Março, a Relatora Especial da ONU, Francesca Albanese, apresentou um relatório ao Conselho dos Direitos Humanos em Genebra, alegando que Israel adoptou o uso sistemático da tortura como política de Estado contra os palestinianos. Intitulado “Tortura e Genocídio”, o relatório defende que a tortura é uma característica estrutural da ocupação e do genocídio israelitas em curso, visando quebrar o espírito do povo palestiniano.

“Vejo um sistema”, denuncia Albanese. “Um sistema que permitiu, forneceu armas e meios para Israel cometer este genocídio. E este sistema está a agir de forma errática, violenta, sem qualquer restrição, porque está a perder a legitimidade que tinha”.

Não é que isto seja uma novidade, especifica a especialista jurídica italiana, é só que não sabíamos tanto como sabemos agora, e a situação tornou-se “descarada, sem travões”.

A 9 de julho de 2025, os Estados Unidos impuseram sanções unilaterais contra Francesca Albanese. De acordo com as alegações do Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Albanese ter-se-á envolvido diretamente com o Tribunal Penal Internacional nos esforços para investigar, prender, deter e processar cidadãos dos EUA e de Israel, sem o consentimento destes dois países.

“Eu cravei o pau no urso”, diz ela, acrescentando que, enquanto os Estados Unidos e Israel travam guerras no Médio Oriente, “os nossos países, os chamados países democráticos e liberais, estão a esmagar a liberdade de expressão e a liberdade de associação dos seus próprios cidadãos. É o mesmo sistema”.

Ao apelidar o sistema de “apartheid global”, Albanese sublinha que se trata da dominação da plutocracia sobre o resto da população, “para que possam continuar a enriquecer cada vez mais, enquanto nós temos de assistir impassíveis ao massacre de mulheres e crianças”.

Critica duramente os media. “Penso que, especialmente os media ocidentais, ampliaram a narrativa desumanizadora contra os palestinianos, dando amplo espaço e plataforma à estratégia militar israelita.”

A comunicação social ocidental não tem sido factual nem objetiva, lamenta Albanese. “Repetiram os estereótipos desumanizantes em que Israel se baseia, justificando este ataque contra os palestinianos como se fosse legítima defesa. Nunca foi legítima defesa, porque o direito internacional afirma que uma potência ocupante não pode travar uma guerra contra a população ocupada. E a população ocupada resistirá sempre. Ora, a resistência pode ser violenta, pode ser ilegal, ilícita nos meios que utiliza, mas a resistência à ocupação é legítima na sua essência, o que não significa justificar os crimes que foram cometidos.”

Ao obscurecer o contexto para evitar atribuir responsabilidades, os media perdem de vista a solução. “Precisamos de eliminar as causas profundas desta violência: a ocupação, o apartheid e a cultura genocida.”

A relatora especial da ONU para a Cisjordânia e Gaza é membro de um grupo de peritos escolhidos pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, composto por 47 membros, em Genebra. As suas críticas às políticas de Israel durante a guerra com o Hamas em Gaza receberam duras condenações. A 12 de fevereiro, enquanto os EUA, a França, a Alemanha e a Itália intensificavam os ataques contra Albanese, o secretário-geral da ONU, António Guterres, distanciou-se dela quando o seu porta-voz, Stéphane Dujarric, afirmou: “Não concordamos com muito do que ela diz.”

Uma atitude que não foi inédita por parte de Guterres. Em março de 2017, a chefe da Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental da ONU, Rima Khalaf, demitiu-se do cargo devido ao que descreveu como pressão de Guterres para que retirasse um relatório crítico a Israel.

O relatório de Khalaf acusava Israel de impor um regime de apartheid aos palestinianos e foi rapidamente retirado do site da comissão.

Questionada pelo Blindspot se, apesar da declaração de Dujarric, tinha recebido algum apoio do chefe da ONU, Francesca Albanese responde curto: “Não.”

Nelson Pereira