Aspirar a um mundo melhor não basta para mudar o que está mal se permanecermos quietos no nosso canto. No entanto, quando se passa à ação, surge outro desafio fundamental: escolher estratégias que produzam resultados. Perceber que anos de luta pouco ou nada mudaram pode ser uma experiência dolorosa.
A activista ambiental holandesa Pippi van Ommen trilhou este caminho difícil ao ser forçada a questionar se anos de envolvimento em activismo de grande pressão tinham sido realmente eficazes. “Depois de me concentrar principalmente na desobediência civil, percebi que era importante conhecer pessoas fora do nosso círculo. A mudança política só acontecerá se nos ligarmos aos outros para construir comunidade”, disse ela ao Blindspot.

Cofundadora do Extinction Rebellion (XR) em Amesterdão, Pippi van Ommen esteve na linha da frente de ações disruptivas, como colar-se às ruas para interromper o trânsito, realizar protestos simulando mortes e bloquear infraestruturas, para sinalizar a urgência das alterações climáticas.
Pippi é um dos três idealistas apaixonados, juntamente com o antifascista berlinense Tadzio Müller e o enviado especial holandês para a água na ONU, Henk Ovink, que, no documentário “O Sistema”, do realizador Joris Postema, se encontram à beira da exaustão ao perceberem que as suas ações, manifestações e conferências não levam a nada, enquanto a situação no mundo só piora. Perante a derrota, surgem questões há muito adiadas: Com quem estou a tentar construir algo? Quem são os meus aliados? Que táticas funcionarão melhor?
“Quando Joris me convidou para participar no filme, inicialmente recusei; não queria este tipo de exposição. Joris filmou-me durante dois anos e já lá vão dois anos”, disse ela, por ocasião da exibição do documentário no Festival Internacional de Cinema e Fórum de Direitos Humanos de Genebra.
Quando iniciou o seu activismo climático, Pippi tinha a certeza de que precisavam da desobediência civil no seu arsenal — dominá-la e construir movimentos em torno dela. “Costumava colar-me ao asfalto e ser presa; os meus pais tinham de me vir buscar à cadeia. Quando as pessoas veem que estás disposta a correr riscos, que te preocupas o suficiente para agir, são levadas a refletir sobre isso.”
Mas, passado algum tempo, começou a pensar que o movimento pela justiça ambiental deveria manter esta linha, mas necessitava de explorar outras táticas. Então percebeu que o que realmente faltava era chegar às pessoas, construir um movimento com elas, ou pelo menos tentar. “O ativismo precisa de ser humanizado, não apenas abstrato ou antagónico. Também precisamos de ser criativos, e isso exige flexibilidade. Arriscar a prisão pode ser uma tática entre outras, mas não deve ser a única.”
Inspirada pelo movimento Deep Canvassing nos EUA, Pippi van Ommen cofundou o Deep Canvassing Netherlands. A organização holandesa treina voluntários para terem conversas profundas e sem julgamentos, de casa em casa, sobre temas polémicos. Esta tática provou ser capaz de imunizar as pessoas contra as mensagens de medo da direita, reduzir o preconceito de forma duradoura e mudar mentalidades e opiniões sobre questões controversas. “Já faço isto há dois anos. E acho que já tive mil conversas e bati a muitas portas.”

Por vezes, durante uma conversa difícil onde falta empatia, um pormenor faz com que, de repente, a pessoa se abra e se quebre completamente o gelo. “Talvez há um ano, estava a falar com um holandês e foi uma conversa muito frustrante. Ele tinha uns 80 anos e não percebia muito bem o que estávamos a fazer ou o que eu queria dele. Não sentia realmente que o estava a aproximar de mim, nem eu dele. Era como se estivéssemos apenas a conversar, um ao lado do outro. Estávamos a falar sobre migração. Eu estava a tentar romper com a narrativa do bode expiatório, mas não estávamos a chegar a lado nenhum. E estava prestes a terminar a conversa quando ele me disse: ‘Espera aí. Estavas a perguntar-me se eu conhecia alguém que não tinha acesso a coisas básicas como comida e essas coisas.’ E eu respondi: ‘Sim, foi assim que comecei a conversa.’ E ele disse: ‘Não conheço ninguém, mas eu era essa pessoa.’ E depois as lágrimas brotaram-lhe dos olhos, começou a chorar. ‘Quando eu era rapaz, durante a Segunda Guerra Mundial, houve uma época de fome, fome a sério. E só me deixavam entrar em casa quando tivesse o pote cheio de comida.» Contou-me que sentia vergonha de ir pedir aos vizinhos, de falar com alguém, e ficava lá fora, a tremer de frio. E de repente, durante a nossa conversa, lembrou-se disso, que tinha esquecido, e aquilo comoveu-o profundamente. E comoveu-me também. E então ele continuou. “Perguntaste-me se não desejaria isto a ninguém, certo? Bem, não, não desejaria isto a ninguém.” E voltámos ao assunto da migração. E algo realmente mudou ali. Como se ele tivesse mesmo mudado de ideias.

Centenas de conversas porta a porta com estranhos que tinham opiniões diferentes solidificaram uma convicção em Pippi: que, fundamentalmente, as pessoas são boas. E que a escuta activa e a partilha de histórias pessoais para nos ligarmos em valores comuns são o caminho para ultrapassar as divisões sociais, reduzir a polarização e construir comunidades baseadas na solidariedade. “Precisamos de uma diversidade de táticas. A desobediência civil continua a ser importante, mas também são importantes os movimentos que constroem comunidades fortes. Devemos envolver-nos ativamente com as pessoas, oferecer narrativas diferentes e desafiar aquelas que dominam o debate público.”
Admitindo que a luta não é fácil quando existem forças financeiras poderosas do lado oposto, a activista ambiental holandesa sublinhou que parte da responsabilidade recai sobre os cidadãos, porque se estes não se envolverem, as instituições democráticas tornam-se estruturas vazias. “Muitas pessoas sentem-se desiludidas com a democracia porque não cumpre o que prometeu. Mas parte da responsabilidade é nossa, uma vez que deixámos de nos envolver. Instituições como as Nações Unidas foram criadas há décadas com a ideia de que poderiam coordenar a ação global. No entanto, estas instituições só têm poder real se as pessoas se mobilizarem em torno delas e lhes derem peso político. Uma democracia está verdadeiramente viva quando as pessoas se organizam e mantêm os sistemas democráticos sob pressão.”
Além disso, bater à porta e conversar é apenas uma tática, e não serve de nada se não fizer parte de uma estratégia maior. “Há um valor real em ser um indivíduo e celebrar isso, mas acho que fomos longe demais nas nossas sociedades. Precisamos também de estar em comunidade e saber como fazer isso. Porque razão é tão difícil construir um movimento de massas agora? Porque somos demasiado individualistas. Esquecemo-nos de como o fazer.”
Nelson Pereira





