UNESCO atribui prémio a estudo inédito de peixinho em São Tomé e Príncipe

Uma investigação científica sobre uma espécie marinha endémica de São Tomé e Príncipe denominada Peixinho, recebeu um prémio internacional da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). 

O Peixinho constitui um recurso pesqueiro fundamental para as comunidades do pequeno país insular no Golfo da Guiné. 

Entrevistada por Luís Guita, a investigadora Vânia Baptista, que liderou o projeto, sublinha que este trabalho envolveu pescadores, estudantes, comunidades locais e instituições de São Tomé e Príncipe, promovendo um modelo de ciência participativa.

Vânia Baptista PHOTO © Luis Guita
BIO: Vânia Baptista

É investigadora do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e professora auxiliar convidada da Universidade do Algarve.


TRANSCRIÇÃO
Como aconteceu a atribuição deste prémio da UNESCO?

Vânia Baptista: Candidatámo-nos com um projeto que era dirigido a cientistas mais jovens que lideravam ou co-lideravam um projeto de investigação e tinha que cumprir com o Objetivo 14 dos ODS (Objetivos de  Desenvolvimento Sustentável), da UNESCO, da Década dos Oceanos. Concorri com o projeto Little Fish, que se desenvolve em São Tomé e Príncipe, e acabámos por ganhar esta distinção, este prémio. Eu digo ganhámos porque, apesar de ter sido eu a concorrer, este prémio é para toda a equipa do projeto, não é só para mim.

Além de estarmos a estudar uma espécie que não foi estudada até então, é uma espécie com grande importância socioeconómica para o país. Também temos tido um grande envolvimento com as comunidades locais para o seu desenvolvimento e sustentabilidade. 

Como é que surgiu o interesse em fazer uma investigação sobre o peixinho em São Tomé e Príncipe? 

Vânia Baptista: Em 2017, aqui no CCMAR, alguns professores, como a professora Alexandra Teodósio, a professora Ester Serrão, a professora Karim Erzini, organizaram um curso sobre Ecologia e Alimentação de Tartarugas Marinhas em São Tomé e Príncipe. Nós temos também já uma grande ligação à ONG do programa TATU. E foi durante esse curso, que eu fui como aluna, que, numa visita ao mercado de peixe da cidade de São Tomé, se encontrou uns alguidares cheios de um peixe, mas muito pequenino. Nós dizíamos que eram larvas de peixe, que eram os peixes bebés, mas as pessoas diziam que não. Diziam que era um adulto anão. Mas nós começámos a perceber que não, que realmente eram larvas de peixe. Na altura, a professora Alexandra Teodósio recolheu uma amostra e trouxe para o laboratório. Depois acabou por identificar como sendo o Sicydium bustamantei. O professor Peter Wirtz acabou por confirmar. E depois começámos a perceber que não existiam estudos, apenas haviam alguns estudos científicos que diziam que, realmente, a espécie tinha sido descrita ali em São Tomé e Príncipe, que seria endémica, ou seja, que só vivia naquela região. A partir daí fomos tentando financiamento. Passado uns anos conseguimos este financiamento da Aga Khan e da FCT para desenvolver o projeto Little Fish.

Esta larva de peixe, ou, como as comunidades identificavam, este “peixe anão”, ele é consumido? Como é que acontece a ligação da comunidade com este animal? 

Vânia Baptista: Ele é muito consumido pelas comunidades. Então, tem um ciclo de vida que é chamado anfídromo. É espetacular este ciclo de vida. Os adultos vivem a montante dos rios, lá bastante em cima. As pessoas, muitas vezes, não veem os adultos, ou acham que são espécies diferentes. Depois, os adultos colocam as posturas dos ovos agarradas às rochas, e depois das larvas eclodirem, das larvas nascerem, elas vão para o mar através das correntes dos rios, porque não têm capacidades natatórias ainda para fazer face a essas correntes. Depois, estão alguns meses no mar, onde se alimentam, crescem, desenvolvem, e quando já têm capacidades sensoriais e natatórias, voltam a entrar nos rios, e é aí que são capturadas pelas pessoas. Além de trazerem outras espécies atrás delas, e as próprias espécies as vão consumindo, chegam em cardumes aos rios, e as pessoas já estão à espera delas, com armadilhas, com redes. Então, é uma pesca super intensiva nesta época. E claro que este peixinho também tem outra característica muito interessante, porque ele tem que, em alguns rios, escalar cascatas para chegar, depois, ao habitat onde se vai transformar em adulto. E aí ele desenvolveu uma ventosa na zona abdominal. Ele é um gobídeo, como os gobídeos que temos aqui nas pocinhas de maré, ele também. Só que essa metamorfose para o desenvolvimento dessa ventosa acontece assim que ele entra no rio. Ele, quando entra no rio ainda não tem essa ventosa. Assim que entra, numa questão de dias, essa ventosa transforma-se, ele está capaz de escalar as cascatas ou mesmo de se agarrar a outras rochas.

A população não consome o peixe adulto? 

Vânia Baptista: Não os consomem adultos. Algumas comunidades já começam a perceber que o peixinho realmente é um bebé, mas algumas comunidades nem sequer chegam a ver o adulto, porque ele vive bastante longe, bastante acima dos rios. E outras acham que são espécies diferentes. Mas sim, eles só consomem durante a fase em que são bebés. Até achamos engraçado porque o peixinho quando entra nos rios é branco, tem uma fase de desenvolvimento mais precoce. Depois de alguns tempos nos rios, ele começa a desenvolver as barbatanas, e começa a ficar mais escuro. e eles chamam de peixinho preto. O peixinho branco e o peixinho preto. Eles têm todos mais preferência pelo peixinho branco. Aliás, a pesca pára quando começa a haver mais peixinho preto. Já tem uma textura provavelmente diferente e eles já não gostam tanto. 

É de imaginar que este tipo de captura terá um impacto na espécie. Já conseguiram documentar, ou não, o impacto desta prática? 

Vânia Baptista: Nós entendemos e achamos que existe realmente um grande impacto, porque além da predação natural tem esta mortalidade imensa. Temos alguns dados para algumas comunidades, mas ainda não conseguimos documentar e comparar com anos anteriores, porque não existem dados do passado. Descobrimos há pouco, em conversas com alguns membros das comunidades, que na altura da época colonial, os portugueses proibiram a captura desta espécie. Na altura não se pescava porque já havia a ideia que era um bebé. No entanto, assim que os portugueses vieram embora, voltou a ser permitida esta pesca.

As comunidades também acabam por já ter uma ideia de que não é correto, e que o peixinho tem vindo a diminuir ao longo dos anos. Eles até dizem que há certos rios onde o peixinho já não sobe de todo. Associam muitas vezes à pesca, e também à poluição dos rios. 

Como é que é feita a captura de um elemento tão pequeno? 

Vânia Baptista: Varia consoante comunidade para comunidade. Em algumas comunidades usam uma armadilha construída com folha de palmeira, que é chamada changa, que é tipo um cone, que é colocado submerso no rio, o rio não pode ter muita água, e depois o peixinho acaba por entrar nessa rede. Outras comunidades, onde o rio já tem mais água e a pesca é feita maioritariamente à noite, a pesca é feita com redes mosquiteiras, aquelas redes para proteger as janelas, muitas vezes também impregnadas com inseticida ainda, e aí depois também é usado uma lanterna, uma chama, para que o peixinho seja atraído para essas redes.

Se é usada essa rede com inseticida, quer dizer que há uma quantidade de produtos químicos que, muito provavelmente, são libertados depois nos cursos de água? 

Vânia Baptista: Sim, sim. Muitas vezes também acabam por lavar as redes antes da pesca, e também lavam-nas nos rios. Quem diz isso diz outros poluentes. A limpeza da maioria dos materiais de casa e de tudo o que eles usam é feita no rio, por isso os níveis de poluição são bastante elevados. 

Como é que as comunidades reagiram ou participaram, se envolveram ou não no trabalho, na investigação? 

Vânia Baptista: Eu acho que isso foi a maior surpresa para todos nós, mesmo para os colegas de São Tomé e Príncipe, porque houve um envolvimento brutal. Na altura, nós organizámos a primeira reunião e decidimos que também iriam os membros das comunidades, também para nos explicarem como é que pescam, qual é a opinião deles, o que é que eles acham. É realmente muito importante. E logo durante essa reunião eles mostraram. Inicialmente acanhados, mas depois já quase que se empurravam, queriam todos mostrar como é que era. E foi-lhes explicado que nós não estaríamos ali para proibir nada, que nós só queríamos era saber mais e queríamos que os filhos e os netos e as gerações vindouras conhecessem o peixinho e que pudessem saborear o peixinho. Então, a partir daí, criámos todos uma ligação de amizade, que acho que é essencial e que move este projeto, essa ligação que temos de amizade com as comunidades.

E eles têm-nos ajudado. Discutimos resultados, tentamos perceber quais são os melhores locais de amostragem, as melhores épocas. Eles mostram-nos como é que constroem as artes de pesca, como é que pescam. Se for preciso amostras, nós próprios compramos às comunidades e assim estamos a ajudar as comunidades, também.

Tentamos arranjar alternativas para sustento, para conseguirmos diminuir um bocadinho a pesca. Organizámos, o ano passado, um curso de produção de holotúrias, os pepinos do mar, e de caranguejos, que são formas relativamente mais fáceis de gerar algum rendimento, principalmente para as mulheres e crianças, que são a maioria da comunidade que faz a pesca do peixinho. 

Encontrou alguma razão, alguma explicação para isso? 

Vânia Baptista: É feita maioritariamente por mulheres e crianças, porque é uma pesca em que não há perigo.

Elas estão nos rios, os rios estão baixinhos, e acaba por ser fácil. No entanto, esta pesca também pode acontecer um bocadinho mais no mar, aí já são os homens que fazem. Mas quando é no interior dos rios, a mulher está ali ao pé de casa, pode ir pôr a armadilha durante o dia e depois vai lá tirar dali a umas horas. Ou está ali no rio a lavar e mete também as armadilhas. Acaba por ser muito uma parte do sustento da família criado pela mulher.

Esta ligação das comunidades de São Tomé e Príncipe ao peixinho é algo que pode acontecer em outras partes do planeta, ou é algo muito específico de São Tomé e Príncipe? 

Vânia Baptista: Desde o início que nos focámos muito em trabalhos desenvolvidos no Caribe, nomeadamente na Dominica, em que também existiam espécies até do mesmo género, ou seja, espécies muito semelhantes, a espécie é diferente. E nesse caso da Dominica até se verificou uma coisa muito triste, infelizmente, é que o peixinho deixou de ser um recurso local para as comunidades e que ficou tão caro que passou a ser um recurso para turistas. Em vez de, se calhar, se pagar um euro, como em São Tomé, ou menos de um euro por duas canecas de peixinho, porque a medida é uma caneca, lá é capaz de se chegar aos 50 dólares, porque é uma iguaria para turista e deixou de ser uma iguaria local. E não é isso que nós queremos que aconteça em São Tomé e Príncipe. 

Estas espécies com este ciclo de vida, estamos a perceber que existem ao longo do mundo. Têm de ser ilhas tropicais, de origem vulcânica, normalmente com rios, com grandes cascatas. E o engraçado, também, é que em muitas delas se tem verificado, em muitos destes locais, que as formas de captura são bastante semelhantes. E isso também é uma coisa muito interessante para continuarmos a estudar, tentar perceber esta ligação entre ilhas ao longo do mundo. 

Como é que tem sido a ligação, a pareceria, a colaboração com instituições em São Tomé e Príncipe? 

Vânia Baptista: Este projeto não seria possível sem o apoio da Universidade de São Tomé e Príncipe e da ONG Marapa, que são os nossos parceiros diretos no projeto. Eles estão connosco desde o início. E, depois, também temos tido o apoio do Programa Tatô, das Tartarugas Marinhas. E temos estado a trabalhar em estreita colaboração com a Direção-Geral das Pescas e da Aquacultura. Temos desenvolvido cursos de formação, discutimos os resultados que vamos obtendo do projeto.
Aliás, aquela instituição está sempre aberta para nós. Tentamos que também nos acompanhem nas saídas de campo, em discussão de vários resultados, metodologias, etc. É, basicamente, também um bocadinho a nossa casa.

Luis Guita