An investigation in the Bijagós Archipelago, classified as a UNESCO World Natural Heritage Site in July 2025, has revealed a rich and previously unknown local biodiversity. The study also shows the alarming presence of non-native species in one of the most intact ecosystems on the Atlantic coast of West Africa.
The work, led by a team from the Algarve Marine Science Centre (CCMAR) in Portugal, in collaboration with local institutions in Guinea-Bissau, the Institute of Biodiversity and Protected Areas (IBAP) and the National Institute for Fisheries and Oceanographic Research (INIPO), documented 28 new records of marine invertebrates in the Bijagós archipelago, including six species never before observed in the Eastern Atlantic, and found two new species of shrimp endemic to the region: Periclimenes africanus and a second, not yet described, of the genus Palaemon.
The scientific expedition involved fishing communities and also served as a driving force in the training of local technicians.
Uma investigação no Arquipélago dos Bijagós, classificado como Património Mundial Natural pela UNESCO em julho de 2025, permitiu conhecer uma biodiversidade local rica e até então desconhecida. O estudo também mostra a presença alarmante de espécies não nativas num dos ecossistemas mais intactos da costa atlântica da África Ocidental.
O trabalho liderado por uma equipa do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR), em Portugal, em colaboração com as instituições locais da Guiné-Bissau, Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas (IBAP) e Instituto Nacional de Investigação Pesqueira e Oceanográfica (INIPO), documentou 28 novos registos de invertebrados marinhos no arquipélago de Bijagós, incluindo seis espécies nunca antes observadas no Atlântico Oriental e encontrou duas novas espécies de camarão endémicas da região: a Periclimenes Africanus e uma segunda, ainda não descrita, do género Palaemon.
A expedição científica envolveu comunidades piscatórias e foi também elemento dinamizador da formação de técnicos locais.
Ester Serrão, coordenadora da expedição de 2023 e investigadora da Universidade do Algarve e do CCMAR, refere que o sucesso da missão só foi possível graças à excelente colaboração entre as equipas de Portugal e Guiné-Bissau.
A investigadora realça o valor da biodiversidade dos Bijagós, facto que fez com que o arquipélago, formado por 88 ilhas e ilhéus, tenha sido classificado pela UNESCO como Património Mundial Natural.
Luis Guita entrevista Ester Serrão:

Ester Serrão: Em termos de natureza, a biodiversidade dos Bijagós é extraordinária. É uma zona onde os ecossistemas são geridos por entidades oficiais em estreita colaboração e dependente das pessoas que vivem nos Bijagós, que têm as suas próprias regulamentações, as suas próprias tradições. Portanto, toda a utilização da natureza é, desde há muito tempo, feita de uma forma muito integrada entre as pessoas que lá vivem. E nalgumas zonas nem sequer há pessoas, porque são muitas, muitas ilhas. Portanto, eles gerem certas ilhas mesmo como reservas que eles próprios criam devido às suas tradições e a considerarem que certas zonas, por exemplo, são sagradas, etc. Para além da riqueza natural que esta zona tem, por ser uma arquipélago com tantas ilhas e com tanta riqueza que vem da sua localização privilegiada e da situação, com umas ilhas mais próximas da zona de grandes rios, de grandes mangais e outras mais longínquas, mais afastadas, com águas mais transparentes, tudo isto, são zonas de poucas profundidades, etc. Toda esta situação geológica, oceanográfica e climática cria ecossistemas muito ricos. Para além disso, a gestão pelas pessoas não tem sido um foco de destruição significativo como tem sido muito mais noutras zonas vizinhas, digamos. Portanto, recebeu este reconhecimento muito merecido de ser Património Mundial Natural.
Esteve a coordenar um projeto nos Bijagós. Quais os objetivos deste projeto quando se propôs avançar com esta investigação?
Ester Serrão: O programa é para toda a costa atlântica de África. Os Bijagós é um dos locais particulares onde focámos mais atenção e o objetivo era conhecer a distribuição das espécies, que espécies existem, a composição das espécies marinhas menos conhecidas.
Há muitos outros estudos, programas e projetos de outras entidades e de outros países sobre, principalmente, espécies mais carismáticas, como aves, tartarugas, mamíferos marinhos, até peixe. Nós focámos mais em aspectos da biodiversidade complementares aos que se conheciam, pouco conhecidos, genericamente florestas marinhas, que podem ser florestas animais, como os corais, as esponjas e outros grupos de invertebrados com nomes difíceis de as pessoas conhecerem, e também grandes macroalgas, plantas marinhas. Portanto, este tipo de biodiversidade que está debaixo da superfície do mar e que, normalmente, as pessoas não conhecem, porque só indo para debaixo do mar é que as conseguem ver, quanto muito na maré muito baixa. Mas, também, tivemos por objetivo dar a conhecer a informação toda que já existe, mas que não está facilmente disponível ao público. Houve já muitos projetos, muitos estudos, etc., que estão publicados, por exemplo, em artigos científicos, ou em teses, ou em relatórios de projetos, e toda essa informação, se as entidades locais quiserem utilizá-la para a gestão, ou, por exemplo, para o dossier da candidatura ao património mundial, era difícil chegar a toda esta informação. O que fizemos foi, penso, uma contribuição muito útil para a gestão, para a ciência, para os cidadãos. Foi pôr a informação toda disponível. Foi recolher a informação que existe em portais, em publicações, em relatórios, muitas vezes não publicada, nos dossiês, nas prateleiras, e juntar toda essa informação, colocá-la toda numa base de dados única, e disponibilizá-la num portal de utilização livre, gratuito, e qualquer pessoa pode ir lá, recolher os dados, ver os mapas de distribuição das espécies, etc.
Por exemplo, no caso dos Bijagós, isto teve muita utilidade para o dossier. Porque, quando perguntaram às entidades de conservação e gestão da natureza da Guiné-Bissau, quais são as espécies que existem dentro da zona a proteger, da zona a designar, comparativamente com fora, nós tínhamos recolhido neste projeto já essa informação toda. Tínhamos as coordenadas geográficas onde já tinham sido avistadas cada espécie, e toda a informação e todos os estudos tinham sido feitos anteriormente. Portanto, estamos a desenvolver este programa não só para os Bijagós, estamos a tentar desenvolver isto para toda a costa atlântica da África.
Este foi um trabalho realizado não só com gente que a acompanhou de Portugal, da Universidade do Algarve, também envolveu investigadores da Guiné-Bissau e a comunidade local.
Ester Serrão: A comunidade local é essencial, não se podia fazer este trabalho sem a comunidade local.
O programa inteiro foi, logo de início, planeado com entidades locais. Foram, primeiro, feitas conversas e inquéritos sobre quais são as necessidades, em que é que gostariam de ter mais formação ou mais apoio do ponto de vista científico. Depois desenvolvemos este programa, tanto para recolher informação em falta, como para fazer capacitação, ou seja, para melhorar o conhecimento em certas metodologias que poderiam ser úteis a quem já é profissional nestas instituições, mas que gostaria de melhorar a sua formação, por exemplo, em sistemas de informação geográfica, ou em estatística, ou em outras técnicas ou outros conhecimentos. Portanto, em colaboração com as entidades locais, definimos quais eram as lacunas de conhecimento e estabelecemos o mestrado profissional para profissionais apenas, para pessoas que já trabalhavam, pelo menos, há cinco anos, por exemplo, nos institutos da pesca, nos institutos da conservação de natureza, em organizações não-governamentais, etc. Tivemos vários tipos de estudantes que vieram trabalhar neste programa, recolher também os dados e informação e integrá-los e levá-los de volta para os seus países.
Portanto, as campanhas foram planeadas com as entidades locais e com estudantes para contribuir para as suas teses e para a informação que as entidades locais necessitavam. Depois, as campanhas locais foram organizadas com eles. Planeámos conjuntamente onde é que deveríamos ir fazer as amostragens, quais eram os sítios mais importantes, o que é que deveríamos ir estudar, e, portanto, o seu conhecimento local era indispensável.
Nós fizemos um conhecimento complementar ao que eles já tinham. Acaba por ser uma sinergia, um daqueles casos em que o todo é mais do que só uma das partes isoladas.
No caso dos Bijagós, por exemplo, a maior parte do trabalho foi desenvolvido com o Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas, que faz um trabalho excelente na zona. Com os recursos que têm, fazem um trabalho excelente, são exemplares, de facto.
Foi recentemente publicado o resultado desta investigação. Quais são as descobertas mais assinaláveis, de maior relevo, que este vosso trabalho veio a revelar?
Ester Serrão: A biodiversidade subaquática. A biodiversidade que fica debaixo da superfície do mar e que não é visível facilmente a qualquer um, tem muitas espécies e muitos habitais que não eram conhecidos anteriormente.
O que foi mais surpreendente, que os próprios colaboradores, os outros biólogos das entidades locais nos diziam que ficavam surpreendidos, é que como nós íamos a mergulho com o escafandro autónomo, podíamos passar muito tempo dentro de água, olhar para o fundo e encontrar espécies que só se encontram estando ali, com cuidadinho, a olhar para o fundo e a ver, “ah! está aqui esta no meio das outras”, etc. Portanto, descobrimos florestas de corais. Alguns corais parecem árvores, são as que nós chamamos as gorgónias, os corais moles, muito ramificados, uns cor de rosa, outros amarelos, outros roxos, muitas cores. Muito bonitas estas florestas de gorgónias, que não se conheciam, não estavam registadas para os Bijagós. Por exemplo, de corais e esponjas, muitas esponjas, também muito coloridas e grandes e ramificadas. Também parecem florestas. Muitas macroalgas. Grandes florestas de grandes algas, vermelhas, castanhas, verdes. Pradarias marinhas. São umas plantas marinhas que até não são de grandes dimensões, nos Bijagós só existe uma espécie tropical que até é bastante pequena, mas que, afinal, está muito mais espalhada. Existe em várias ilhas e em vários locais, muito mais do que se sabia anteriormente. Portanto, a descoberta e a cartografia da localização deste tipo de ecossistemas foi uma grande novidade. Acho que é importante para chamar a atenção para a riqueza dos Bijagós, que para além de tudo o que já se conhecia, que é uma riqueza extraordinária, o que terá sido talvez a maior novidade foi o nosso foco nestas outras espécies que normalmente têm menos atenção.
Estamos a falar do lado revelador, mais positivo, que este projeto trouxe à tona, mas, se calhar, depois também poderá haver aspectos menos positivos com os quais também se depararam. Possíveis espécies invasoras, possíveis efeitos de poluição, de alterações climáticas?
Ester Serrão: Hoje em dia, tanto as alterações climáticas como as espécies invasoras são um problema global que infelizmente afeta especialmente os países que pouco contribuem para o problema. Muitas vezes são os países menos desenvolvidos que mais natureza têm, aqueles que têm mais a perder com estes efeitos globais, que não foram criados por eles, porque são criados mais por países mais industrializados, que já destruíram mais a sua natureza. Mas, então, no caso das espécies invasoras, acabamos por descobrir um grande número destas espécies invasoras que são invertebrados, agarrados às rochas e que competem com outras espécies que também necessitam do espaço nas rochas para se agarrarem, que são nativas.
Tal como se nós pensarmos no meio terrestre, toda a gente compreende a competição pelo espaço de certas espécies. Por exemplo, nas plantas, o chorão, que é uma espécie que invade muitas áreas e não deixa que outras plantas se instalem, cobre tudo. Dentro do mar, existe o mesmo problema, há rochas que ficam cobertas por espécies que são invasoras, que não são da zona e que impedem as espécies naturais nativas da zona de encontrar espaço para se instalar. Enquanto elas se reproduzem têm umas pequenas larvas que têm que se agarrar às rochas para originar o próximo coral, por exemplo, ou a próxima esponja, e que se estiver tudo coberto por uma espécie invasora já não se podem instalar. Muitos destes grupos têm uns nomes até pouco conhecidos das pessoas, como há uns briozoários, umas ascídias. Outros grupos próximos dos corais, e que foram descobertos com abundância inesperada nesta zona, que é tão natural. Não estávamos à espera de encontrar tanta espécie invasora.
Ora, como é que isso acontece? A maior parte destas espécies vem de zonas longínquas, a zona nativa não é mesmo ali perto, por isso é que são espécies exóticas. Algumas poderão ter vindo do outro lado do Atlântico, ou vêm do Indo-Pacífico e acabam por entrar ou dum ou doutro lado do Atlântico. Portanto, a origem mais provável é o tráfego marítimo, a circulação de grandes navios, tanto de mercantis como até de pescas, que vêm não para dentro dos Bijagós, pois não há grandes navios, é uma zona muito baixa, mas ao longo de toda a costa atlântica da África, onde a circulação de navios é uma coisa enorme. Portanto, podem trazer espécies ou agarradas aos cascos ou nas águas de lastro, que são águas que enchem os porões num determinado sítio e depois largam num outro sítio diferente, e levam as larvas e tudo o que estiver na água e que se vai agarrar ao fundo. Portanto, essas espécies podem depois serem introduzidas, por exemplo, no Senegal, que é mesmo ali ao lado, e depois, através de pequenos objetos flutuantes ou agarradas aos cascos dos barcos mais pequenos, das canoas, etc., acabam por se ir espalhando e chegando mesmo aos Bijagós. Nas nossas amostragens, muitas espécies foram amostradas, que foram depois sequenciadas com o ADN para encontrar, para verificar qual o nome da espécie, através de métodos moleculares, que são métodos que permitem, de forma mais eficaz, ter a certeza que aquela espécie não é exatamente a mesma que outra muito parecida morfologicamente, pois que a sequência do ADN é diferente. As mais fáceis e mais rápidas de identificar foram as exóticas, porque aquela sequência já existia na base de dados, exatamente a mesma sequência daquela espécie já existia na base de dados, por exemplo, do Indo-Pacífico. Dizemos, isto é a mesma espécie do Indo-Pacífico que está aqui, ou a mesma espécie que existe nas Caraíbas, e não se sabia que estava aqui deste lado do Atlântico, não se sabia que existia em África. Afinal, algumas espécies são registos novos para a costa de África, e que provavelmente estão nos outros países todos da costa de África. Mas ainda não foram encontradas, porquê? Porque ainda não foi feita essa amostragem, que só se encontra se andarmos, de facto, nas rochas, como neste caso, andámos em mergulho, portanto, com atenção às rochas, a apanhar todas as pequenas espécies que eram diferentes umas das outras. É a mesma amostragem indicada e depois a sequenciação para verificar que, de facto, é uma espécie que não é endémica dali. Há muitas outras espécies que ainda não foram identificadas e que não estavam diretamente já presentes nas bases de dados, e portanto, elas podem vir a ser mesmo espécies novas, ainda não conhecidas para a zona. Mas a quantidade de espécies invasoras é um problema, porque algumas delas espalham-se bastante, têm uma grande cobertura, quando cobrem as rochas, de forma muito contínua e não deixam espaço para as outras espécies se instalarem. E ficamos a pensar como é que teria sido esta zona, como é que teriam sido os Bijagós antes destas espécies invasoras chegarem lá. Porque, agora vemos que elas são muito abundantes e que ocorrem por todo lado. Algumas cobrem mesmo zonas muito significativas, onde anteriormente teriam estado espécies nativas. Portanto, pensamos, já chegámos um bocadinho tarde, gostaríamos de ter tido uma linha de base, do que é que teria sido o estado dos Bijagós, antes destas espécies invasoras todas terem colonizado estas zonas. Já fizeram alguma alteração, certamente, mas nunca vamos saber o quê, porque foi no passado e não ficou registado.
O resultado desta investigação foi recentemente publicado. Depois deste resultado publicado, a investigação continua?
Ester Serrão: Exato. Este trabalho todo fazia parte da tese de mestrado de um aluno, um profissional do Instituto das Pescas da Guiné-Bissau, o Felipe Nhanque. Portanto, fazia parte do mestrado profissional que criámos no Programa MarÁfrica. Com estes dados, criou-se um portal que disponibiliza os dados todos que foram recolhidos, não só nas nossas campanhas, como todos os que já existiam de todas as fontes anteriores, desde 1800 e tal. Está tudo, agora, disponível ao público. Portanto, ele, como foi formado nesta área, continua a procurar mais informação e a entregá-la para o portal.
O portal é atualizado mensalmente, com toda a informação nova que existe, é o portal Mar África. Se procurarem Mar África, encontram o portal. Tem bases de dados para os Bijagós, para o Parque Nacional do Banco d’Arguin na Mauritânia, para as áreas marinhas protegidas de Cabo Verde, para a zona de transição entre a Namíbia e Angola, a zona do Cunene, que é muito rica também.
As primeiras zonas de foco são zonas especialmente ricas em biodiversidade. Colocámos os dados todos que foram recolhidos já disponíveis. E, portanto, continua a haver mais campanhas. Nós próprios vamos continuar a ir lá, fazer mais campanhas em colaboração com as mesmas entidades e os mesmos investigadores para continuar a ajudar. Eles próprios foram equipados com este equipamento de mergulho, por exemplo, e também fizemos formação. E continua a ser feita a parte da identificação molecular das espécies. Eles podem continuar por si só, mas nós também continuamos a colaborar.
O programa continua em termos de uma colaboração contínua e sempre que há oportunidade fazemos mais algumas campanhas para complementar o trabalho, para continuar. Por um lado, continua de forma automática, todos os meses é atualizado o portal, com a informação nova que existe e, por outro lado, mais campanhas e mais trabalho de campo e mais colaboração do ponto de vista de reuniões diretas e conversas diretas. Estamos sempre em contacto, porque criámos uma rede, que não foi só para naquele momento fazer aquilo e terminar. Criámos uma rede de contactos que ficam para o futuro, porque muitas vezes eles contactam-nos e precisamos saber isto ou precisamos saber aquilo ou precisamos de ajuda nisto, e nós fazemos o melhor possível, porque estão sempre disponíveis. Mas eles próprios já têm, por sua iniciativa, com os laboratórios mais equipados, os conhecimentos para fazer as coisas. Os complementos de informação que nós tentámos atribuir já estão disponíveis lá, cada vez precisam menos de nós. Mas nós continuamos a querer sempre colaborar, porque, de facto, é uma colaboração fascinante e que nós também apreciamos muito.
Há diferentes iniciativas, diferentes programas de diferentes países que trabalham sobre a costa ocidental de África. Como é que o MarÁfrica pode contribuir, pode ser diferente em relação a esses outros programas, a esses outros projetos?
Ester Serrão: Fundamentalmente importante e uma grande contribuição, que eu acho que tivemos com este programa e continua sempre, porque é permanentemente atualizado, é o portal de dados de biodiversidade, porque o acesso à informação é algo muito importante. A informação pode existir, mas se as pessoas não têm acesso fácil e acessível, acaba por não ser utilizada, o que acontece com imensos estudos. Há programas na costa atlântica de África, por exemplo, da União Europeia, da França, da Alemanha, da Holanda, etc., imensos. Desde há décadas que há estudos e programas e projetos que recolhem informação e deixam um relatório, que fazem publicações científicas, fazem teses, etc., mas quando as entidades locais querem utilizar a informação para os seus fins de gestão, para definir quais são as áreas em que se pode fazer, por exemplo, uma determinada atividade, ou não se deve fazer outra porque se vai destruir algo, toda essa informação, apesar dela existir, porque houve estudos que recolheram informação, não está facilmente disponível. Então, ao perceber isso, percebemos que é necessário disponibilizar a informação de forma livre, de forma compatível, porque cada estudo utiliza a sua forma de colocar os dados. E não só não estão acessíveis, como não são estandardizados, não estão comparáveis uns com os outros. Não só entre países, cada um tem as suas formas de guardar dados. Mesmo dentro de cada país, cada instituição tem alguns dados, outros têm outros, e, muitas vezes, quem tem os dados e a informação são os investigadores que fizeram os estudos que os têm no seu computador ou têm numa publicação, mas não estão numa base de dados em que possam ser acessíveis. O que se vê é só um gráfico, ou um resultado, já com tudo integrado. Os dados de base são muito úteis, muito importantes, e nós percebemos que existiam imensos dados, imensa informação que foi recolhida, e que se não se perder, se não se deixar que aquilo desapareça nos computadores, não sei onde, ou que fique em PDFs, ou que fiquem, em outras formas, pouco acessíveis. Portanto, não só recolhemos a informação como foi toda transformada, editada, para estar num formato compatível. Todos os dados de todas as fontes foram transformados para um formato comum, e agora, estando num formato comum, consegue-se ir às bases de dados do Mar África e ver qual a distribuição de cada espécie, quando e onde é que já foi observada cada espécie, e assim perceber, por exemplo, em relação às alterações climáticas, quais são as distribuições das espécies atuais, quais foram os registos dessas espécies no passado, e depois usar esses dados até para prever quais serão as distribuições das espécies no futuro. Porque um dos objetivos é, por exemplo, se percebermos que uma espécie está no seu limite sul de distribuição, por exemplo, nos Bijagós, e não vai mais para sul, e que é possível, por exemplo, as corvinas, que é uma espécie com interesse comercial enorme da espécie que é apanhada em Portugal. Chegam lá no limite sul, mas cada vez há menos, se calhar com alterações climáticas e as alterações ambientais está-se a ver que cada vez há menos, portanto, se calhar, é importante as entidades saberem que investir na pesca da corvina não é, se calhar, algo importante. Isto é só para dar um exemplo de uma espécie que sabemos que é muito importante em alguns sítios, mas que no futuro a sua distribuição pode ser alterada. Portanto, o conhecer a distribuição atual das espécies permite não só planear como é que se faz a gestão hoje, nos ecossistemas que temos, também permite fazer previsões de qual será a distribuição dos ecossistemas daqui a 50 anos, e fazermos hoje o planeamento da gestão costeira, já a pensar como é que as coisas vão ser daqui a 50 anos, ou daqui a 100 anos. Já existem dados e modelos que nos permitem fazer essas previsões. É por isso que, por exemplo, na própria formação do Mestrado do Mar África, também tínhamos uma disciplina que era fazer Modelos de Previsão da Distribuição das Espécies no futuro, para que também possam integrar isso na sua própria atividade de gestão.
Luis Guita
Projecto MarAfrica: https://ccmar.ualg.pt/project/marafrica-network-monitoring-integrating-and-assessing-marine-biodiversity-data-along-west


















